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Dialogando com o Mestre


Deveria dizer-me envergonhado por ainda não ter adentrado a obra do mestre libanês Gibran Khalil Gibran. Mas não irei fazê-lo. Humildemente, vou tomando contato com seus escritos, deixando-me envolver pela atmosfera mística da sua obra singular, profundamente voltada para as reflexões existenciais que tanto nos perturbam.

Nascido no Líbano em 1883, Khalil Gibran mudou-se para Nova Iorque em 1910, onde permaneceria até o ano de sua morte, em 1931. Além de escritor, pode-se dizer que ele atingiu o mesmo grau de perfeição no exercício da pintura. Pertencente à Igreja Ortodoxa, Khalil Gibran conquistou admiradores entre os mais diferentes credos. Consta que na cerimônia do seu funeral, compareceram líderes católicos, muçulmanos, protestantes, judeus, ortodoxos e maronitas, entre outros.

Para os povos do Médio Oriente, ele é o Profeta, o “Amado Mestre”. Sobre o seu túmulo, localizado numa gruta do Mosteiro de Mar Carkis, em Bsharri, no Líbano, lê-se a singela inscrição: “Aqui, entre nós, dorme Gibran”.

Ontem, após ler um texto seu intitulado “O Poeta”, do livro "Os Temporais",  atrevi-me a rascunhar um poema, que por falta de criatividade recebeu o nome “Olhar Estrangeiro”:

Olhar estrangeiro

Alheio à paisagem circundante
Um homem caminha por entre
Labirintos de solidão

Cada vida que atravessa a avenida
Nesta manhã nublada
É uma ilha inexplorada

Alheio aos transeuntes naufragados
Em sua própria existência
Um homem caminha indiferente
À sua inerente condição de ilha

Quiçá ele fosse mais que um promontório
Um continente inteiro de forças
Adormecidas

Todavia,
Alheio à sua condição de náufrago
Aquele homem relutante se sente
Feito um estrangeiro dentro da própria vida

(Glauber Ramos)


O Poeta
do livro "Os Temporais"

Sou um estrangeiro neste mundo.
            
Sou um estrangeiro, e há na vida do estrangeiro uma solidão pesada e um isolamento doloroso. Sou assim levado a pensar sempre numa pátria encantada que não conheço, e a sonhar com os sortilégios de uma terra longínqua que nunca visitei.
            
Sou um estrangeiro para minha alma. Quando minha língua fala, meu ouvido estranha-lhe a voz. Quando meu Eu interior ri ou chora, ou se entusiasma, ou treme, meu outro Eu estranha o que ouve e vê, e minha alma interroga minha alma. Mas permaneço desconhecido e oculto, velado pelo nevoeiro, envolto no silêncio.
            
Sou um estrangeiro para o meu corpo. Todas as vezes que me olho num espelho, vejo no meu rosto algo que minha alma não sente, e percebo nos meus olhos algo que minhas profundezas não reconhecem.
            
Quando caminho nas ruas da cidade, os meninos me seguem gritando: “Eis o cego, demos-lhe um cajado que o ajude.” Fujo deles. Mas encontro outro grupo de moças que me seguram pelas abas da roupa, dizendo: “É surdo como a pedra. Enchamos seus ouvidos com canções de amor e desejo.” Deixo-as correndo. Depois, encontro um grupo de homens que me cercam, dizendo: “É mudo como um túmulo, vamos endireitar-lhe a língua.” Fujo deles com medo. E encontro um grupo de anciãos que apontam para mim com dedos trêmulos, dizendo: “É um louco que perdeu a razão ao freqüentar as fadas e os feiticeiros.”
            
Sou um estrangeiro neste mundo.
            
Sou um estrangeiro e já percorri o mundo do Oriente ao Ocidente sem encontrar minha terra natal, nem quem me conheça ou se lembre de mim.
            
Acordo pela manhã, e acho-me prisioneiro num antro escuro, freqüentado por cobras e insetos. Se sair à luz, a sombra de meu corpo me segue, e as sombras de minha alma me precedem, levando-me aonde não sei, oferecendo-me coisas de que não preciso, procurando algo que não entendo. E quando chega a noite, volto para a casa e deito-me numa cama feita de plumas de avestruz e de espinhos dos campos.
            
Idéias estranhas atormentam minha mente, e inclinações diversas, perturbadoras, alegres, dolorosas, agradáveis. À meia-noite, assaltam-me fantasmas de tempos idos. E almas de nações esquecidas me fitam. Interrogo-as, recebendo por toda resposta um sorriso. Quando procuro segura-las, fogem de mim e desvanecem-se como fumaça.
            
Sou um estrangeiro neste mundo.
            
Sou um estrangeiro e não há no mundo quem conheça uma única palavra do idioma de minha alma...
            
Caminho na selva inabitada e vejo os rios correrem e subirem do fundo dos vales ao cume das montanhas. E vejo as árvores desnudas se cobrirem de folhas num só minuto. Depois, suas ramas caem no chão e se transformam em cobras pintalgadas.
            
E as aves do céu voam, pousam, cantam, gorgeiam e depois param, abrem as asas e viram mulheres nuas, de cabelos soltos e pescoços esticados. E olham para mim com paixão e sorriem com sensualidade. E estendem suas mãos brancas e perfumadas. Mas, de repente, estremecem e somem como nuvens, deixando o eco de risos irônicos.
            
Sou um estrangeiro neste mundo.
            
Sou um poeta que põe em prosa o que a vida põe em versos, e em versos o que a vida põe em prosa. Por isto, permanecerei um estrangeiro até que a morte me rapte e me leve para minha pátria.

(Gibran Khalil Gibran)

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