domingo, 20 de maio de 2012

A última noite da sua vida


Já passavam das dez da noite quando ele foi surpreendido por um clarão que invadiu o seu quarto. O que seria aquilo, um contato extraterrestre? Um anjo da anunciação?

Não importava. Ateve-se exclusivamente àquela voz límpida, sobrenatural, jamais experimentada pelos seus ouvidos, que simplesmente lhe disse: - Com a primeira luz do sol, você não estará mais nesse mundo.

O que fazer de agora em diante? A pureza e a mansidão daquela voz não deixaram dúvidas, de fato sua vida não ultrapassaria aquela noite. Não amanheceria como nos outros dias, quando acordava mal disposto para o trabalho. Não teria que escutar o despertador às seis e quinze da manhã, entrar embaixo da ducha morna, escovar os dentes e tomar café na companhia da mãe. Deveria avisá-la que seria desnecessário mais um prato e um copo na mesa da manhã seguinte? Pensou que seria demasiado cruel.

Aliás, ela não acreditaria. Talvez deixasse um bilhete, quem sabe avisando que fugiria para sempre, que não aguentava mais aquela vida. Ela pediria por socorro, avisaria a polícia, mas jamais o encontraria. Um profundo desgosto, é verdade, mas ao menos alimentaria a esperança de que o filho ainda estivesse vivo. Com sorte, poderia enlouquecer, e quem sabe assim viver numa realidade paralela, convivendo com pessoas e lugares imaginários e de tempos em tempos, receber a visita do filho desaparecido.

Queria chorar? Não sabia ao certo. Não sabia se sentia medo do que haveria por vir após a aurora. Recordou os avós falecidos e pensou na possibilidade de reencontrá-los. Balela, nunca acreditou nessas coisas espirituais. Mal se lembrava da última vez que havia entrado no interior de uma igreja, tampouco sabia rezar.

Deveria sair, ir para a rua, encher a cara num bar e procurar a companhia de uma prostituta? A princípio, considerou a possibilidade, mas depois de achá-la ridiculamente juvenil, brincadeira de adolescentes, mudou de ideia. Deveria fazer algo que deixasse gravado no tempo a sua efêmera existência, mas tipo o que? Não se aventuraria a bancar o herói correndo atrás de bandido, estilo homem-aranha, poderia morrer com um tiro no peito antes mesmo da hora marcada. Pensou em escrever algo grandioso, um poema épico que pudesse divulgar em seu perfil de rede social, mas a única coisa que sabia escrever eram versos bobos e repetitivos, alimentados pelas poucas desilusões amorosas que acumulou ao longo da vida.

Deveria avisar alguém, mas quem? Já havia descartado dar a notícia à mãe. O pai morava longe, em outro estado, e há mais de dois anos não o via. Sabia de algumas fontes que o velho não andava bem de saúde, e uma notícia dessa natureza poderia piorar o seu quadro. Falaria com quem então? Pensou em ligar para sua ex namorada, com que havia terminado há quase um ano. Mas lembrou que ela havia trocado de número, fato este que ele descobriu por acaso quando inutilmente tentou ligar para ela no final do ano passado, e somente dava caixa de mensagem. Dos ex colegas de faculdade, com apenas um mantinha contato casual, mas o cara tinha mania de criticá-lo nos tempos da graduação e hoje vivia numa situação difícil, dois filhos pequenos e um emprego que mal custeava os gastos básicos. Uma ligação e o cara se colocaria a reclamar da vida para todo o sempre. Em seu trabalho, a situação era pior, convivia com aquele pessoal apenas durante o expediente. Após, não tinha mais notícias de ninguém, sequer sabia o bairro onde morava cada um.

O que fazer então? Ligou o computador e montou uma set list com suas músicas preferidas. Foi ao guarda-roupa e da parte de cima retirou uma garrafa de uísque importada, ainda lacrada, na qual havia gastado uma nota preta. Vagarosamente foi à cozinha, pegou algumas pedras de gelo e as trouxe para o quarto. Com o copo na mão e a música rolando, sentiu-se reconfortado, um privilegiado, que poderia ter um momento de prazer antes de dizer o adeus derradeiro.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

A noiva

A noiva

Ela é linda; ela está noiva – ela usa Ponds.
Marcos Rey

Depois de um dia cansativo de viagem – saindo de um avião para entrar em outro – finalmente cumpriria os quilômetros finais da minha jornada, e dessa vez a bordo de um ônibus. Agradava-me a sensação de terra firme, de poder assistir a paisagem que lentamente se reinventava na janela, em que pese a velocidade com que as aeronaves percorrem as grandes distâncias.

Começava a anoitecer quando o ônibus partiu. O corpo fatigado, meus olhos começavam a pesar quando fui surpreendido pela visão de uma bela moça que caminhava em minha direção. Percebi que ela sorriu discretamente, certamente em resposta ao sorriso involuntário que eu trazia na boca. Agora lá estava ela, uma poltrona à frente da minha. Eu continuava com sono, mas pensei que poderia ser uma boa idéia seguir no trecho jogando um pouco de conversa fora, o tempo passaria mais rápido e indubitavelmente seria mais agradável a viagem.

Faria contato perguntando-lhe as horas ou qual seria o seu destino – imaginei –, mas antes que eu falasse qualquer coisa, percebi que ela se moveu na poltrona, decerto procurando a posição mais confortável para o seu corpo e sua mente. Ela então reclinou o banco, deixando a cabeça apoiada sobre a mão direita. A partir dali, a inevitável constatação: estava noiva. O brilho indefectível do ouro reluzia naquela aliança espessa e rebuscada. Pelo que tenho reparado ultimamente, principalmente nos amigos que andam se casando (e cada vez menos são os solteiros, companheiros de bar e de conversa fiada), estão na moda esses modelos paramentados de anéis de compromisso, alguns vazados, formando desenhos de toda ordem, que nem de longe lembram as singelas alianças utilizadas pelos casais de antigamente. O amor nos dias de hoje virou artigo de luxo, comprado nas melhores joalherias.

Fiquei pensando na condição ostentada por aquela moça. As noivas tem isso de peculiar: representam um ponto médio entre a frivolidade dos namorados e a sisudez dos casados. A gentil nubente, como diria o baiano Jorge Amado, é uma prometida dentro da sociedade, que se impõe pelo fato de carregar a expectativa de se transformar em breve na senhora de alguém. Além disso, o seu título possui um prazo certo de duração, ou ao menos deveria possuir, pois os homens verdadeiramente seguros da decisão tomada já estabelecem a data limite na qual o anel migrará da mão direita para a esquerda.

Contudo, não podemos olvidar que existe o outro lado da moeda, o revés que ultimamente tem acometido cada vez mais mulheres. Infelizmente, já pude testemunhar algumas histórias assim, de noivados desfeitos sem qualquer motivo aparente. Em relação às noivas que conheci, posso afirmar convicto que eram todas mulheres lindas, inteligentes e afetuosas, mas que viram seus sonhos matrimoniais desfeitos, tendo que confessar a sua dor em meio a lágrimas amargas, buscando de alguma forma recompor-se dos meses, ou mesmo anos, inutilmente despendidos ao lado de alguém que no final das contas jamais as mereceu. Triste vilania essa, perpetrada por mancebos imaturos e desprovidos de personalidade, mal instruídos nas coisas da vida e do amor.

A minha companheira de viagem permanecia imóvel naquela posição. A cada carro que passava pela pista oposta, um feixe de luz inundava o interior do ônibus, fazendo brilhar aquele valioso pedaço de metal, e assim, de tempos em tempos, um novo reflexo beliscava os meus olhos. Senti que deveria dormir.

Quando finalmente pude acordar, percebi que a moça havia partido. Em alguma rodoviária do caminho ela desceu, e fiquei a imaginar a cena, o futuro marido esperando-a ansiosamente, dando-lhe um abraço para esquentar o seu corpo e um beijo discreto, envergonhados, já que estavam entre desconhecidos. Ele pegava as suas malas e as colocava no bagageiro do carro, e dali seguiriam felizes, crentes de que a vida não poderia ser melhor. É meu amigo, como diria aquela canção dos Paralamas, “cuide bem do seu amor, seja quem for...”.

O brilho daquela aliança se perdeu nas profundezas da noite fria, assim como as lembranças de uma certa garota se dissiparam nas câmaras do meu pensamento. Ah, minha amada de olhos ateus, se cada belo sorriso que me deste não trouxesse consigo o desdém pelo amor desajeitado, porém sincero, que um dia te ofereci, eu até seria capaz de tomar sua mãozinha magra e fria entre as minhas, levá-la junto aos meus lábios, dizer-te uns versos bobos e colocar uma aliança em seu dedo, daquelas bem fininhas como costumavam usar as nossas avós, sem pensar nas dores que o futuro dessa vida poderia nos trazer.  

quarta-feira, 11 de abril de 2012

CEMITÉRIO DOS NAVIOS


Aqui os navios se escondem para morrer. 


Nos porões vazios, só ficaram os ratos 
à espera da impossível ressurreição. 


E do esplendor do mundo sequer restou 
o zarcão nos beiços do tempo. 


O vento raspa as letras 
dos nomes que os meninos soletravam. 


A noite canina lambe 
as cordoalhas esfarinhadas 


sob o vôo das gaivotas estridentes 
que, no cio, se ajuntam no fundo da baía.


Clareando madeiras podres e águas estagnadas, 
o dia, com o seu olho cego, devora o gancho 


que marca no casco as cicatrizes 
do portaló que era um degrau do universo. 


E a tarde prenhe de estrelas 
inclina-se sobre a cabine onde, antigamente, 


um casal aturdido pelo amor mais carnal 
erguia no silêncio negras paliçadas. 


Ó navios perdidos, velhos surdos 
que, dormitando, escutam os seus próprios apitos


varando a neblina, no porto onde os barcos 
eram como um rebanho atravessando a treva!


Lêdo Ivo

quarta-feira, 4 de abril de 2012

História do Samba

Pra quem gosta de samba de verdade, e deseja conhecer a fundo as raízes desse gênero musical, bem como a história dos artistas que o tornaram popular, aí vai o endereço certo:

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Semelhanças no dessemelhante


Se existe um tema que me deixa em constante desassossego é a nossa incapacidade de compreensão do próximo. Como é o sentir e o pensar do nosso semelhante? Por mais que a convivência se prolongue no tempo, poderíamos ousar dizer que "conhecemos" o outrem? Como bem advertiu o mestre João Guimarães Rosa, "Quem sabe do orgulho, quem sabe da loucura alheia?"

Para resolver a questão, acredito que somente um homem de muitos "eus" poderia fazê-lo, como o foi Fernando Pessoa, que um dia assim escreveu:



Como é por dentro outra pessoa

Como é por dentro outra pessoa  
Quem é que o saberá sonhar?  
A alma de outrem é outro universo  
Como que não há comunicação possível,  
Com que não há verdadeiro entendimento. 


Nada sabemos da alma  
Senão da nossa;  
As dos outros são olhares,  
São gestos, são palavras,  
Com a suposição de qualquer semelhança  
No fundo.  

  1934



sexta-feira, 30 de março de 2012

Onírica

Frio noturno. Acima das retinas, o silencioso deslizar da lua e o brilho em vigília de uma estrela longínqua, a lançar seu lume clarificado por sobre águas revoltas de destinos incertos. Havia um rumor de coração, e com ele o soçobrar de memórias inquietas, naufragadas ao primeiro sono. E um sonho de nítidas formas e cores, nascido de alguma realidade sobrenatural, por onde trazias um sorriso embevecido, há muito esquecido nos labirintos de feridas mal cicatrizadas. E despertei, acreditando que por alguns instantes contemplara a face da paz...

sexta-feira, 23 de março de 2012

CANÇÃO DA MOÇA DE DEZEMBRO

A moça dança comigo
nessa noite de dezembro.
Na sala onde giramos
se alguém mais há não me lembro.


O ondear da moça ondeia
uma melodia ainda
mais doce que a da vitrola
— e uma alegria vinda


dessa doçura me envolve.
Cabe bem no meu abraço
esse perfume com que
vou girando e em que me abraso


em meus quinze anos (a moça
terá, talvez, dezessete
ou dezoito). Como a valsa,
a vida o melhor promete.


E já oferta: esse corpo
a cada instante mais perto.
Ao qual responde meu corpo,
como nunca antes desperto.


E a moça vai-me queimando
em seu hálito, afogando-me
nos cabelos, e nos olhos
luminosos siderando-me!


E eis que, dançando, saímos
além da sala e do tempo.
E dançando prosseguimos
sempre que sopra dezembro,


nos mesmos giros suaves,
nos mesmos ledos enganos:
eu, o antigo rapaz,
e a moça, morta há treze anos.


Ruy Espinheira Filho