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Mostrando postagens de maio, 2011

O ARCANJO

Incólume, um homem seguia em meio aos transeuntes. Os passos largos, porém não apontavam direção alguma. Sentou-se e naquele instante foi decretado seu exílio espécie de aborto, onde se viu expurgado de todas as relações humanas da vida do mundo. As palavras feneceram em sua boca magra os gestos brancos inaudíveis como os passos do vento não despertavam a curiosidade alheia. Tudo lhe era confuso, numa profusão de dúvida e terror. Em seu peito, o tempo veloz fazia sibilar os sinos da morte. Foi quando uma dor pungente o fez despertar seu grito ecoou por ruas, praças, edifícios e toda gente parou. Sorrindo, de suas costas viu brotar asas portentosas. Os olhos fixos no infinito subitamente ascendeu às plagas celestiais até se fundir por completo no granito azul do firmamento. Glauber R. * * * Goiânia, 02 maio 2007. Ouvindo agora: Lele ft. Radiohead - High and Dry

E ela domingava num domingo toda de branco...

Normal Rockwell, o pintor do "American Way of Life" E o que nos restou neste domingo? Os fracassos da semana que passou? O álcool diluído nas veias após a noitada de sábado? Enfim, cada um que colha seu dia como melhor lhe aprouver, conforme nos ensinou o poeta romano Horácio: Carpe Diem . Da parte que me cabe, faço minha as palavras do cantor e compositor Lionel Richie:  I'm easy like Sunday morning - estou tranquilo como uma manhã de domingo. Maceo Parker e Fred Wesley - House Party Mayer Hawthorne - Maybe So Maybe No   Donavon Frankenreiter - Move by Yourself

Quintal das lembranças

Torquato Neto - o anjo torto Torquato Neto nasceu no dia 9 de novembro de 1944 em Teresina, capital do Piauí. Aos 16 anos de idade, Torquato mudou-se para Salvador e frequentou juntamente com Gilberto Gil, seu futuro parceiro em várias canções, o Colégio Nossa Senhora da Vitória. Também na capital baiana entrou em contato com Caetano, Bethânia e o Cinema Novo de Glauber Rocha, tendo participado como assistente no filme Barravento. A amizade com os baianos da Tropicália seguiu quando mudou-se para o Rio de Janeiro, a então capital federal. Estudou jornalismo, mas não chegou a se formar. Fortemente envolvido com o cinema marginal, as artes plásticas, a Tropicália e os poetas de vanguarda do movimento concretista, Torquato Neto funcionava como um disseminador de ideias entre os diferentes polos. No final dos anos 60 viu-se obrigado a sair do país. A ditadura cada vez mais extremista empurrava para o exílio as melhores cabeças do país. Torquato Neto andou por Londres e Estados Unido...

Belchior, onde anda você?

Belchior, meu velho, por onde você anda? Ainda estaria no interior do Uruguai, vivendo como um ermitão numa cabana em San Gregorio de Polanco? Ou tirou seu indefectível bigode e hoje vive irreconhecível entre nós? Seja lá onde quer que esteja, seu talento faz falta. Mas que volte logo. Como você mesmo disse, " Há tempo, muito tempo que eu estou longe de casa / E nessas ilhas cheias de distância / O meu blusão de couro se estragou... " À palo seco Se você vier me perguntar por onde andei No tempo em que você sonhava De olhos abertos lhe direi Amigo eu me desesperava Sei que assim falando pensas Que esse desespero é moda em 73 Mas ando mesmo descontente Desesperadamente eu grito em português   Tenho 25 anos de sonho, de sangue E de América do Sul Por força deste destino Um tango argentino Me vai bem melhor que um blues   Sei que assim falando pensas Que esse desespero é moda em 73 Eu quero é que esse canto torto feito faca Corte a carne de vocês Belchio...

OS DEDOS DO TEMPO

  Distraidamente, meus olhos percorriam a silhueta de uma pequena árvore que dançava ao sabor do vento no outro lado da rua. Enquanto isso, a comida esfriava no fundo prato. Voltei para o meu almoço. Já eram quase duas da tarde. No interior do restaurante, poucas mesas encontravam-se ocupadas naquele horário. Não muito longe do lugar onde me encontrava, um homem sentou-se, acompanhado por um garoto que devia ter no máximo dez anos de idade. Seu rosto me pareceu familiar e logo emergiram da memória imagens que o retratavam em outras épocas. Num cálculo rápido, cheguei a conclusão de que almoçava naquele mesmo lugar há quase doze anos, e já nos primeiros anos havia me deparado com aquele homem. Lembro que na época ele não passava de um jovem cabeludo, a barba por fazer, um pouco acima do peso, meio desajeitado, de bermudão e tênis all star . E tinha também a namorada, de cachos vermelhos e pele excessivamente branca, sempre metida dentro de algum vestido ou saia que remetesse ao m...

BETSY

Um conto de Rubem Fonseca O escritor norte-americano Ernest Hemingway ao lado de um dos muitos gatos que criava, algo em torno de 50 bichanos. Ainda hoje, em sua antiga casa na ilha de Key West, Flórida, hoje transformada em museu, vivem inúmeros felinos da espécie, descendentes dos primeiros gatos que ali chegaram. BETSY Betsy esperou a volta do homem para morrer. Antes da viagem ele notara que Betsy mostrava um apetite incomum. Depois surgiram outros sintomas, ingestão excessiva de água, incontinência urinária. O único problema de Betsy até então era a catarata numa das vistas. Ela não gostava de sair, mas antes da viagem entrara inesperadamente com ele no elevador e os dois passearam no calçadão da praia, algo que ela nunca fizera. No dia em que o homem chegou, Betsy teve o derrame e ficou sem comer. Vinte dias sem comer, deitada na cama com o homem. Os especialistas consultados disseram que não havia nada a fa...

Fragmentos de uma (pseudo) carreira jornalística

Relembrando certa época da minha vida em que eu exercia o mister de colunista de jornal, escrevendo para o democrático Diário da Manhã , tradicional periódico do Estado de Goiás. Quem sabe relendo alguns desses artigos, eu ressuscite o "formador de opinião" que um dia existiu em mim. E antes que me perguntem, não sou formado em Jornalismo, mas sim em Direito.   Ouvindo: Moacir Santos - Jequié by Quintal Velho

Dialogando com o Mestre

Deveria dizer-me envergonhado por ainda não ter adentrado a obra do mestre libanês Gibran Khalil Gibran. Mas não irei fazê-lo. Humildemente, vou tomando contato com seus escritos, deixando-me envolver pela atmosfera mística da sua obra singular, profundamente voltada para as reflexões existenciais que tanto nos perturbam. Nascido no Líbano em 1883, Khalil Gibran mudou-se para Nova Iorque em 1910, onde permaneceria até o ano de sua morte, em 1931. Além de escritor, pode-se dizer que ele atingiu o mesmo grau de perfeição no exercício da pintura. Pertencente à Igreja Ortodoxa, Khalil Gibran conquistou admiradores entre os mais diferentes credos. Consta que na cerimônia do seu funeral, compareceram líderes católicos, muçulmanos, protestantes, judeus, ortodoxos e maronitas, entre outros. Para os povos do Médio Oriente, ele é o Profeta, o “Amado Mestre”. Sobre o seu túmulo, localizado numa gruta do Mosteiro de Mar Carkis, em Bsharri, no Líbano, lê-se a singela inscrição: “ Aqui, entre nós...

Toca, Raul!

Fotografia de Henri Cartier-Bresson Quando você crescer O que que você quer ser quando você crescer? Aguma coisa importante Um cara muito brilhante Quando você crescer Não adianta, perguntas não valem nada É sempre a mesma jogada Um emprego e uma namorada Quando você crescer E cada vez é mais difícil de vencer Pra quem nasceu pra perder Pra quem não é importante É bem melhor Sonhar do que conseguir Ficar em vez de partir Melhor uma esposa ao invés de uma amante Uma casinha, um carro à prestação Saber de cor a lição Que no bar não se cospe no chão, nego Quando você crescer Alguns amigos da mesma repartição Durante o fim de semana Se vai mais tarde pra cama Quando você crescer E no subúrbio com flores na sua janela Você sorri para ela E dando um beijo lhe diz: Felicidade É uma casa pequenina É amar uma menina E não ligar pro que se diz Belo casal que paga as contas direito Bem comportado no leito Mesmo que doa no peito Sim Quando você crescer E o futeb...

O dia em que Londres parou

Imagine que você está caminhando pelas ruas em um dia normal. Inesperadamente, uma música vinda de um lugar desconhecido começa a invadir o ambiente. Você logo reconhece a música e a voz daqueles que a entoam. E se eles são os Beatles, certamente você vai parar para ouvi-los. Tal fato se deu no dia 30 de janeiro de 1969. No telhado do prédio da gravadora Apple, foi montado um palco onde realizou-se aquele que seria o último show ao vivo do Quarteto de Liverpool, o Apple Rooftop Concert. Com a confusão instalada nas ruas, não demorou muito para que a famosa Scotland Yard, a guarda metropolitana londrina, aparecesse. Totalmente desprovidos de senso de humor, fizeram com que os Beatles parassem de tocar e deixassem o local. Na ocasião, Paul McCartney afirmou que teria sido um grande desfecho se eles tivessem sido presos. Mas isso não seria preciso, caro Paul. Não há grades capazes de deter a força e a beleza de certas canções. Parte 1 Parte 2 Parte 3

DORES DO MUNDO

Levantou-se sem alarde. Sentiu que a manhã corroía menos que o de costume. Ah, a velha faca encravada que teima em não matar. Pouco a pouco, a ferrugem se dissolvendo em seu sangue, trazendo à boca o sabor antigo e rançoso do que não foi. A vida. Na capa do disco, a imagem de uma árvore frondosa em meio a um entardecer de inverno, ali brotando erma de sentidos no coração daquela solidão de limpas planícies. Aquele era seu paraíso secreto, a paisagem íntima que cada criatura guarda em si, onde sonhos e realidades se misturam num amálgama indivisível. E qual o significado de estar ali? E todas as sensações e criaturas que permeavam o ambiente, para onde iam? Viviam? "E tu, que bebeste pouco, não choraste no enterro do irmão, não gozaste teus vinte anos. Agora olhas para trás, muito percorrestes, é tarde demais. Venderias a alma? Tens uma alma? Ou somente um velho corpo tingido de cicatrizes?” Auscultar-se-ia. No peito, um pulsar longínquo que parecia perder sua for...

Rumo a Sampa

Alguma coisa acontece no meu coração... De partida rumo à capital paulista, razão pela qual este blog ficará alguns dias sem ser atualizado. Aproveitando a ocasião, trago à baila aquela bela música do Caetano, que traduz tão bem o sentimento daqueles que se defrontam pela primeira vez com a aridez da maior cidade do Brasil. Até a volta! Sampa Alguma coisa acontece no meu coração Que só quando cruzo a Ipiranga e a Avenida São João É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi Da dura poesia concreta de tuas esquinas Da deselegância discreta de tuas meninas Ainda não havia para mim Rita Lee, a tua mais completa tradução Alguma coisa acontece no meu coração Que só quando cruzo a Ipiranga e a Avenida São João Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto Chamei de mau gosto o que vi De mau gosto, mau gosto É que Narciso acha feio o que não é espelho E a mente apavora o que ainda não é mesmo velho Nada do que não era antes quando não somos mut...

Dentro do mesmo time

Chico Buarque e Bob Marley - Rio, março de 1980 Há exatos 30 anos (mais precisamente em 11 de maio de 1981), o rei do reggae Robert " Bob " Nesta Marley nos deixou. A sua música, porém, é fonte inesgotável de influências para novas gerações, não só pelas batidas marcantes do reggae, mas sobretudo pelas mensagens que conseguiu transmitir através de suas letras, de forte cunho social e pacifista. Em março de 1980, Bob Marley fez sua única visita ao Brasil. Chegando aqui, foi reverenciado por gente como Milton Nascimento, Caetano Veloso, Toquinho e Chico Buarque. Chegou a jogar futebol com este último, dentro do mesmo time. Assim como ensaiaram uma vez Pelé e Maradona em um programa de tv argentino, em que os dois trocaram bolas entre si por alguns minutos, nos dando a sensação de que a bola jamais cairia, Bob Marley e Chico Buarque juntos também nos transmitem uma sensação semelhante: a de que a obra dos gênios, por mais que o tempo passe, jamais fenecerá como a sombra...

A Cuba de Pedro Juan Gutiérrez

O escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez diz abominar a política, embora sua obra esteja impregnada pelo denuncismo social. Ao contrário de outros escritores que fugiram do regime castrista, Gutiérrez não abandonou a ilha de Fidel. Mas o preço a se pagar por essa decisão é deveras pesado. Ele jamais teve um livro seu lançado em seu país natal, embora sua obra já tenha sido publicada em mais de 20 países. Dono de um estilo ágil e enxuto que desenvolveu em seus anos como jornalista, Pedro Juan Gutiérrez expõe sem piedade as mazelas da vida cubana. Do alto do 8º andar do prédio decadente em que vive, ele absorve a crua realidade de um país que muitas vezes é retratado como a síntese do sonho comunista que vingou. Caminhando pelas ruas melancólicas de Havana, Gutiérrez se mistura aos mais diferentes tipos que compõem a paisagem social da capital cubana – bêbados, viciados, curandeiros, prostitutas, biscates, turistas e travestis – a ponto dele próprio converter-se em personagem de su...