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Quintal das lembranças

Raymond Carver

O escritor americano Raymond Carver (25 de Maio de 1938 – 2 de Agosto de  1988) é, sem sombra de dúvidas, um dos principais expoentes do conto americano no século XX. Para muitos, o principal representante do gênero dentro dos EUA.

Dono de um estilo enxuto, ou como preferem os estudiosos, minimalista, Carver notabilizou-se pela economia de palavras na sua produção literária.

Com relação aos seus personagens, tinha predileção por aqueles indivíduos que por um motivo ou outro se viam à margem da sociedade: alcoólatras, desempregados, agressores, enfim, o populacho suburbano pertencente à classe média - pessoas imersas em  existências banais que a princípio seriam incapazes de despertar no leitor qualquer curiosidade sobre suas histórias de vida.

Mas é justamente desse substrato de banalidades que Carver colhe os elementos necessários à sua obra. Admirador do russo Chekhov, Raymond Carver adotou a visão conformista deste ao retratar o cotidiano, que, para ele, representava "a mais completa derrota do sonho americano".

Precocemente falecido aos 50 anos de idade, Carver não chegou a desfrutar o sucesso que sua obra adquiriu após a sua morte. Mas o legado de Carver para as gerações presente e futura reveste-se da mesma importância que os legados de nomes como Ernest Hemingway e William Faulkner representaram para a sua geração.


Mecânica popular 

             Bem cedo naquele dia o tempo começou a virar e a neve derretia e se transformava em água suja. Regatos escorriam da janelinha que batia na altura do ombro e dava para o quintal. Carros desciam pela rua encharcada e lá fora começava a escurecer. Mas estava ficando escuro também dentro de casa.
            
             Ele estava no quarto enfiando as roupas na mala quando ela se aproximou da porta.
             
             Estou feliz por você ir embora! Estou feliz por você ir embora!, disse ela. Está ouvindo?

             Ele continuou pondo suas coisas na mala.

            Filho da puta! Estou muito feliz por você ir embora! Ela começou a gritar. Você nem é capaz de olhar na minha cara, não é?
             
            Então ela reparou na foto do bebê sobre a cama e pegou-a.

            Ele olhou para ela, que esfregou os olhos e fitou-o, antes de se virar e voltar para a sala.

            Traga isso aqui, disse ele.

            Pegue suas coisas e vá embora de uma vez, disse ela.

            Ele não respondeu. Fechou a mala, vestiu o paletó, olhou em volta do quarto antes de apagar a luz. Em seguida foi para a sala.

            Ela estava na porta da cozinha pequena, segurando o bebê.

            Eu quero o bebê, disse ele.

            Está maluco?

            Não, mas eu quero o bebê. Vou mandar alguém vir depois para pegar as coisas dele.

            Você não vai tocar neste bebê, disse ela.

            O bebê tinha começado a chorar e ela removeu a manta que encobria sua cabeça.

            Ah, ah, disse ela olhando para o bebê.

            Ele avançou em direção a ela.

            Pelo amor de Deus!, disse ela. Ela deu um passo para trás e entrou na cozinha.

            Eu quero o bebê.

            Saia daqui!

            Ela se virou e tentou segurar o bebê num canto da parede, por trás do fogão.

            Mas ele avançou na direção dela. Estendeu a mão por cima do fogão e apertou o bebê com as mãos.

            Solte o bebê, disse ele.

            Vá embora, vá embora!, gritou ela.

            O bebê estava com a cara vermelha e berrava. Na briga, derrubaram um vaso de planta pendurado atrás do fogão.

            Então ele a apertou de encontro à parede, na tentativa de obrigá-la a soltar a criança. Ela continuou segurando o bebê e empurrou com todo o seu peso.

            Solte a criança, disse ele.

            Não, disse ela. Você está machucando o bebê, disse ela.

            Não estou machucando o bebê, disse ele.

            Da janela da cozinha não vinha nenhuma luz. Na penumbra, ele tentava abrir à força dos dedos dela com uma das mãos e, com a outra, segurava o bebê, que berrava, apertando a criança por baixo do braço, perto do ombro.

            Ela sentiu seus dedos sendo forçados a abrir. Sentiu o bebê sendo tirado de suas mãos.

            Não!, berrou ela na hora em que as mãos se abriram.

            Ela não podia ficar sem aquele bebê. Agarrou o outro braço do bebê. Segurou o pulso do bebê e inclinou-se para trás.

            Mas ele não queria soltar. Sentiu o bebê escorregando de suas mãos e puxou de volta com muita força.

            Dessa forma, a questão ficou resolvida.


Tradução de Rubens Figueiredo


 
Conto retirado do livro 68 contos de Raymond Carver, Editora Companhia das Letras, cuja aquisição recomendamos.

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