Pular para o conteúdo principal

O adeus a Mário Chamie

Faleceu neste triste 04 de julho, aos 78 anos de idade, o crítico e escritor Mário Chamie, em decorrência de um câncer de pulmão que enfrentava há mais de um ano.

Chamie foi o idealizador da chamada "poesia-práxis", corrente dissidente do movimento concretista iniciado pelos irmãos Augusto e Haroldo de Campos juntamente com o poeta Décio Pignatari. Conforme definição do próprio Chamie, os poemas práxis resultavam de um levantamento de palavras dentro do campo semântico do tema escolhido para o poema ou livro.

Ex-secretário de cultura da cidade de São Paulo (1979-1983), ele foi em grande parte o responsável pela criação do Centro Cultural São Paulo. Como professor de literatura na década de 1960, chegou a lecionar na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, tendo como um dos seus alunos o músico Jim Morrison (1943-1971), futuro líder da banda The Doors, com quem trocou correspondências.

Ultimamente, Mario Chamie "emprestava" sua voz ao programa 50 por 1 da TV Record, apresentado por Álvaro Garnero. Ele era o responsável pela narração de fundo, sempre intervindo com algum comentário perspicaz no decorrer das matérias.

Sobre Mário Chamie, escreveu o crítico Antonio Cândido: ele “tentou de certo modo preservar a estrutura do poema, além de manter um forte rastro de realidade. As suas experiências são interessantes como tentativa de manter a tradição do Modernismo sem renunciar ao espírito de vanguarda!”.


QUEDA INTERIOR

Se a queda é livre
o medo da queda
é preso.

Livre é a queda
sem embaraço
defeso.

A queda
de um homem
tenso
não é a guerra
do Peloponeso
pelo estreito
de um coração
perverso.

A queda
livre
é o próprio peso
de um coração
suspenso.

Toda queda
é o menosprezo
de quem cai
sobre si mesmo.
 


PLANTIO

Cava,
então descansa.
Enxada; fio de corte corre o braço
de cima
e marca: mês, mês de sonda.
Cova.

Joga,
então não pensa.
Semente; grão de poda larga a palma
de lado
e seca; rês, rês de malha.
Cava.

Calca
e não relembra.
Demência; mão de louco planta o vau
de perto
e talha: três, três de paus.
Cova.

Molha
e não dispensa.
Adubo; pó de esterco mancha o rego
de longo
e forma: nó, nó de resmo.
Joga.

Troca,
então condena.
Contrato; quê de paga perde o ganho
de hora
e troça: mais, mais de ano.
Calca.

Cova:
e não se espanta.
Plantio; fé e safra sofre o homem
de morte
e morre: rês, rés de fome
cava.

 
PALAVRA DE HOMEM

Um pouco de amargura não resolve.
      Um pouco de amargura
      se dissolve,
se nesta cidade
não conheces o outro
que está perto e pouco.
A palavra de homem em tua boca
espera a palavra e o nome
                            de peso e cobre.
Espera a voz do outro
que acusa a palavra pouca
e explode a armadura
dessa amargura rouca.
Falar não salva o homem.
- Estás na outra
                  palavra do outro
                      perto e solto.
Falar não abre a porta
            não abre a cela
            não salva o foco
            de tuas chagas.
Falar só salva, salvo
se o outro
                                 do outro lado
fale por tua boca:
               - a fala pouca
               que te dissolve
               a arma pura
               desta amargura
               que não resolve.
   

RODÍZIO DO CORPO

Dia. A avenida jaz num leito
quando sou inerte neste reino
de dormir. Pedra sobre pedra,
seus andores duram em terra
e são chamados casa, edifício.
Movo os olhos e contudo rijo
meu corpo imóvel nunca leva
às duras alamedas graça aérea.
Necessário que o físico (cabeça,
feixe de ossos e ágeis peças)
permaneça rodízio senão moto-
­contínuo onde ruas sejam o foco
de luz na sombra e vice-versa.
Eis mover. O movimento humano
das coisas que animo, se amamos.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Paratodos

Por aqueles tempos Tom Jobim andava triste, distante da música, quiçá desiludido com as coisas do Brasil e certamente abalado pela doença que consumia suas forças. Chico Buarque então lhe mandou uma gravação e pediu que o amigo a escutasse, ainda que a contragosto. Tom emocionou-se com os versos da canção Paratodos , na qual Chico Buarque declara toda a importância do amigo na sua formação musical. Uma justa homenagem ao maestro Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim.

Bud Spencer & Terence Hill

Se havia algo capaz de me deixar extremamente feliz nos meus anos de infância e adolescência, certamente era quando os reclames do plim-plim anunciavam algum filme da dupla Bud Spencer e Terence Hill na Sessão da Tarde. Era diversão garantida, principalmente pelas atuações formidáveis de Spencer, com seu jeito mal humorado e seus socos potentes, que não raro levavam a nocaute vários adversários de uma só vez. Somente há pouco tempo (Deus salve a Wikipédia) descobri que os dois atores são italianos. Bud Spencer na verdade se chama Carlo Vicente Pedersoli, (Nápoles, 31 de outubro de 1929), e para minha grata surpresa foi um grande nadador, tendo participados das Olimpíadas de 1952, 1956 e 1960. Já Terence Hill, o galã da dupla, atende pelo nome de Mario José Girotti, e nasceu em Veneza no dia 29 de março de 1939. Não sei relacionar o nome dos filmes, porque o que importava para mim era a pancadaria rolando solta. Vale a pena rir um pouco com esses caras. Dois tiras fora de ordem - cen...

A poesia de Paulo César Pinheiro

Há muito tempo admiro o trabalho do carioca Paulo César Pinheiro como letrista e compositor. O início do sucesso de P.C. Pinheiro deu-se a partir da parceria estabelecida com o violonista Baden Powell em 1965, que ganhou vida na voz da inesquecível Elis Regina. A partir daí, vários nomes perfilaram-se ao seu: Tom Jobim, Edu Lobo, Toquinho, Dori Caymmi, Ivan Lins, João Nogueira e muitos outros. Com João Nogueira, de quem foi um grande amigo, Pinheiro compôs inúmeros sambas que foram imortalizados pela mineira Clara Nunes, com quem ele foi casado. Aos poucos estou conhecendo o trabalho de P.C. Pinheiro na seara da poesia. Espero adquirir em breve algum livro seu. A julgar pela sua qualidade como compositor, Paulo César Pinheiro já pode ser considerado um dos grandes nomes da poesia brasileira contemporânea. VIDÊNCIA Eu vi uma velha, um velho e vi um menino. E sobre as mãos e o colo da anciã Eu vi a renda, a agulha, o bilro e a lã Com que tecia as malhas do Destino. Eu vi uma ve...