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Mostrando postagens de abril, 2011

Um mestre do conto

Raro registro fotográfico O curitibano Dalton Trevisan é, sem qualquer dúvida, o mais arredio dos nossos escritores contemporâneos. Não dá entrevistas e jamais se deixa fotografar. Agraciado com vários prêmios literários, quase nunca aparece para recebê-los. Toda essa mítica em torno de sua pessoa fez com que Dalton encarnasse seu personagem mais famoso, O vampiro de Curitiba . Imerso no anonimato, Dalton pode passear incólume por entre as pessoas e espiar de perto as relações humanas que servem de inspiração para suas histórias. Tal qual um cirurgião experiente, Dalton é capaz de dissecar com profundidade exemplar a realidade humana, para em seguida devolver ao leitor um espetáculo de miudezas e mesquinharias que de certa forma habita a vida de cada um de nós. Lendo Dalton Trevisan, é possível ter a sensação de estar-se nu diante de um espelho que realça mais que o desejado não só os defeitos do corpo, mas também os da alma. Uma vela para Dario Dario vinha apressado, guarda-ch...

Quintal das lembranças

Os Novos Baianos Passaram-se os anos, o mundo vertiginosamente mudou de direção e os sonhos de outrora hoje mais se assemelham com aquarelas infantis esquecidas na gaveta de um cômodo antigo. Mas na esteira do tempo, a epopeia musical engendrada  pelos Novos Baianos parece não ter envelhecido. Tudo começou quando um jovem garoto chamado Moraes Moreira (Antônio Carlos Moreira Pires) partiu do interior baiano, mais precisamente da pequena Itauçu, encravada na Chapada Diamantina, rumo a Salvador, com a intenção de cursar Medicina. Artista desde cedo em seu recanto natal, não demorou muito para que Moraes enveredasse por esse caminho. Entrou para o Seminário de Música da Bahia, onde conheceu o músico Tom Zé, de quem chegou a ser aluno. Foi Tom Zé que apresentou Moraes a Luiz Galvão, misto de engenheiro e poeta, e os dois tornaram-se os principais compositores dos Novos Baianos. Não demorou muito para que um terceiro integrante viesse a juntar-se aos dois - Paulinho "Boca de Canto...

Vou-me embora pra Pasárgada...

Natividade - TO Não, não é verdade o que postei no título, não vou-me embora pra Pasárgada. A bem da verdade, irei para aquela que considero minha Pasárgada, a pequena e secular Natividade, capital histórica do Estado do Tocantins. Uma semana para recuperar as energias e esquecer os desgostos da cidade grande. Até mais! Cachoeira do Paraíso Centro histórico

O habitante de Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada Vou-me embora pra Pasárgada Lá sou amigo do rei Lá tenho a mulher que eu quero Na cama que escolherei Vou-me embora pra Pasárgada Vou-me embora pra Pasárgada Aqui eu não sou feliz Lá a existência é uma aventura De tal modo inconseqüente Que Joana a Louca de Espanha Rainha e falsa demente Vem a ser contraparente Da nora que nunca tive E como farei ginástica Andarei de bicicleta Montarei em burro brabo Subirei no pau-de-sebo Tomarei banhos de mar! E quando estiver cansado Deito na beira do rio Mando chamar a mãe-d'água Pra me contar as histórias Que no tempo de eu menino Rosa vinha me contar Vou-me embora pra Pasárgada Em Pasárgada tem tudo É outra civilização Tem um processo seguro De impedir a concepção Tem telefone automático Tem alcalóide à vontade Tem prostitutas bonitas Para a gente namorar E quando eu estiver mais triste Mas triste de não ter jeito Quando de noite me der Vontade de ...

«E N T R E A S P A S»

"Numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário" George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair - 25/06/1903 - 21/01/1950) - escritor inglês. Entre suas obras mais famosas, merecem destaque A Revolução dos Bichos e 1984 . 

Nas asas de Gagarin

E eis que neste 12 de abril comemora-se o cinquentenário da primeira viagem do homem ao espaço. E eis que a homérica jornada espacial coube a um jovem cosmonauta russo de 27 anos, chamado Yuri Alekseievitch Gagarin. E o que se passava na cabeça de Gagarin nos instantes que antecederam a partida da nave Vostok? Tivesse ele medo? E por que ele foi o escolhido? Talvez a resposta esteja na sua estatura. Diferentemente do biotipo padrão dos russos, Gagarin tinha apenas 1 metro e 57 centímetros de altura, estatura ideal para as dimensões mínimas do bólido. E o filho de camponeses agora singrava rumo a mares desconhecidos, na mais solitária das viagens que um homem pode empreender. E lá do alto, durante os 108 minutos que esteve em órbita, Yuri Gagarin pode contemplar o minúsculo planeta incrustado na dimensão infinita do espaço, que oberservado dali parecia tão calmo e silencioso, para em seguida exclamar admirado: "A Terra é azul!". E esta mesma Terra azul, habitada por ho...

Poemas de Nuno Júdice

O LUGAR DAS COISAS Gosto das palavras exactas, as que acertam com o centro das coisas, e quando as encontro é como se as coisas saíssem de dentro delas. Essas palavras são duras como os objectos que designam, pedra, tronco, ferro, o vidro de espelhos quebrados com o calor da tarde. Tento incendiá-las quando escrevo, como se o fogo saísse de dentro da frase, e se espalhasse pelo campo da página numa devastação de                                                  [ sílabas. Então, atiro sobre as palavras outras palavras, água, pó, terra, o ar seco do verão, para que a                                                  [ voz não fique queimada nesta paisagem negra. Recolho os restos, os adjectivos, os advérbios, artigos, ...

Domingo se foi...

Encerrando as atividades por hoje reverenciando o saudoso Claudio Camunguelo. Autodidata, mestre do samba e do choro, devoto fiel de São Jorge, a quem dedicava  na data de 23 de abril uma grande festa,  batizada como São Jorge de Camunguelo , verdadeira epifania que misturava catolicismo com umbanda, tudo regado a muita cerveja, samba e feijoada. Claudio Camunguelo faleceu no dia 24 de dezembro de 2007, aos 60 anos de idade. Fica aqui o registro desse artista genuinamente brasileiro. Arlindo, Beth, Dudu e Camunguelo - Mulata Beleza/Meu Gurufim Choro brasileiro   Saravá!!

Aboio Sertanejo

Já havia lido alguma coisa a respeito, mas ainda tinha minhas dúvidas acerca da influência que o aboio sertanejo sofreu da cultura árabe. Para quem não sabe, o aboio é uma espécie de canto de trabalho, uma forma de comunicação entre os vaqueiros, ou destes com a boiada. Atualmente, ainda é praticado em algumas regiões do interior do Nordeste, mas também sobrevive, ainda que de forma incipiente, em alguns estados do Norte e Centro-Oeste brasileiro, além do norte de Minas Gerais. O aboio pode conter versos ou não. Na forma original, desenvolvia-se por meio de sons guturais, sob a forma de um chamado lamurioso, por meio do qual o boiadeiro conduzia o gado por longas distâncias. Acredito que o aboio em versos é uma variante do repente, fortemente influenciado pela literatura de cordel, mas que também nasceu da necessidade desse homem de vida sofrida conter a saudade, extravasando esse sentimento por meio de letras que pudessem contar sua história de vida. Sobre a influência árabe, é ...

«E N T R E A S P A S»

"Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória" José Saramago (1922 - 2010) - Escritor português. Vencedor do Nobel de Literatura em 1988.   * * *   Janela da Alma - por José Saramago

A terceira margem do rio

Um conto de João Guimarães Rosa   Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa. Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? ...

Johnny Cash: o homem de preto

(Kingsland, 26 de fevereiro de 1932 — Nashville, 12 de setembro de 2003) O velho Cash não fazia concessões. Foi cantor de country, porém não usava roupas coloridas. Foi contemporâneo de Elvis Presley e Jerry Lee Lewis, mas olhava com desdém pra esses caras. Cash deu algumas dicas que foram fielmente seguidas pelo pupilo Bob Dylan. Por um longo período suportou o vício de anfetaminas e outras drogas. Foi casado com June Carter por 35 anos. O velho Cash gostava de visitar presídios e cantar para os condenados. Ele teve treze filhos, sendo doze mulheres e um homem. A voz do velho Cash soava como um eco rouco no interior de uma caverna escura. Certo dia, Cash encontrou com Deus, mas disse a Ele que só iria para o céu usando suas vestes negras. E assim o homem de preto partiu numa viagem sem volta. Man In Black Well, you wonder why I always dress in black, Why you never see bright colors on my back, And why does my appearance seem to have a somber tone. Well, there's a reason...