Pular para o conteúdo principal

Banho

A resistência do chuveiro queimara na noite anterior e sabia que o banho gelado na manhã seguinte seria inevitável. Suspirou profundamente.

Ainda pensava nela, é verdade – a maneira como desfilava pelos cômodos do seu pequeno apartamento.  Um sol profundo parecia iluminar e aquecer seu coração sombrio durante aqueles dias. E disso sentia falta. Mas não esboçava nenhuma melancolia, apenas uma lembrança passageira que logo se dissipou ao colocar as mãos no livro que estava lendo antes de dormir.

Passeava pelas ruas insalubres de Havana enquanto consumia as linhas daquele livro de contos do Pedro Juan Gutiérrez. Pensou que gostaria de viver daquele modo, desvencilhado das convenções sociais, movido apenas pelos extintos e pelas necessidades fisiológicas do seu corpo humano.  Álcool e sexo, resumindo em duas palavras. Porém, mal terminado um dos contos, lembrou que precisava dormir, acordaria cedo para o trabalho.

Levantou-se aborrecido, o tempo correra mais rápido que o planejado. Dormindo em pé, dirigiu-se para o banheiro. Acendeu a luz e uma forte ardência invadiu seus olhos. Esperou alguns instantes até que pudesse abri-los completamente.

Entrou no box e abriu de uma só vez a torneira do chuveiro. Esquecera-se da resistência queimada. Assustou-se. Deu um passo para trás e ficou espiando a água que corria para o ralo. Vagarosamente deixou que a água gelada percorresse seus pulsos.  Era maio e fazia frio. Sentiu o coração acelerar naquele instante, como se prenunciasse uma tragédia inevitável.

De olhos fechados, deu um passo a frente e sentiu a água gelada invadindo toda a extensão da pele. Suspendeu a respiração enquanto sentia o coração batendo forte. Quis gritar, mas prendeu a voz. Com as mãos apoiadas na parede, sentia a contração pulmonar. Respirou fundo e segurou o ar mais uma vez.  Um pequeno sorriso desenhou-se em seu rosto ao perceber que estava vivo. 

* * * 
Goiânia, 16 mar 2011

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Paratodos

Por aqueles tempos Tom Jobim andava triste, distante da música, quiçá desiludido com as coisas do Brasil e certamente abalado pela doença que consumia suas forças. Chico Buarque então lhe mandou uma gravação e pediu que o amigo a escutasse, ainda que a contragosto. Tom emocionou-se com os versos da canção Paratodos , na qual Chico Buarque declara toda a importância do amigo na sua formação musical. Uma justa homenagem ao maestro Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim.

Bud Spencer & Terence Hill

Se havia algo capaz de me deixar extremamente feliz nos meus anos de infância e adolescência, certamente era quando os reclames do plim-plim anunciavam algum filme da dupla Bud Spencer e Terence Hill na Sessão da Tarde. Era diversão garantida, principalmente pelas atuações formidáveis de Spencer, com seu jeito mal humorado e seus socos potentes, que não raro levavam a nocaute vários adversários de uma só vez. Somente há pouco tempo (Deus salve a Wikipédia) descobri que os dois atores são italianos. Bud Spencer na verdade se chama Carlo Vicente Pedersoli, (Nápoles, 31 de outubro de 1929), e para minha grata surpresa foi um grande nadador, tendo participados das Olimpíadas de 1952, 1956 e 1960. Já Terence Hill, o galã da dupla, atende pelo nome de Mario José Girotti, e nasceu em Veneza no dia 29 de março de 1939. Não sei relacionar o nome dos filmes, porque o que importava para mim era a pancadaria rolando solta. Vale a pena rir um pouco com esses caras. Dois tiras fora de ordem - cen...

A poesia de Paulo César Pinheiro

Há muito tempo admiro o trabalho do carioca Paulo César Pinheiro como letrista e compositor. O início do sucesso de P.C. Pinheiro deu-se a partir da parceria estabelecida com o violonista Baden Powell em 1965, que ganhou vida na voz da inesquecível Elis Regina. A partir daí, vários nomes perfilaram-se ao seu: Tom Jobim, Edu Lobo, Toquinho, Dori Caymmi, Ivan Lins, João Nogueira e muitos outros. Com João Nogueira, de quem foi um grande amigo, Pinheiro compôs inúmeros sambas que foram imortalizados pela mineira Clara Nunes, com quem ele foi casado. Aos poucos estou conhecendo o trabalho de P.C. Pinheiro na seara da poesia. Espero adquirir em breve algum livro seu. A julgar pela sua qualidade como compositor, Paulo César Pinheiro já pode ser considerado um dos grandes nomes da poesia brasileira contemporânea. VIDÊNCIA Eu vi uma velha, um velho e vi um menino. E sobre as mãos e o colo da anciã Eu vi a renda, a agulha, o bilro e a lã Com que tecia as malhas do Destino. Eu vi uma ve...