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Mostrando postagens de março, 2011

Sizenando, a vida é triste

Rubem Braga Está provado que acordar mais cedo faz o dia maior. Esta frase não é minha, e desgraçadamente não consegui saber o nome de seu autor, pois acordei muito cedo, mas não o bastante cedo; quando liguei o rádio às 6:10 a aula já tinha começado; ouvi o programa até o fim, mas não fiquei sabendo o nome do professor. "La verando estas vera jardeno, plena de floroi". Nunca estudei esperanto, mas suponho que a varanda ou o verão está com muitas flores no jardim; de qualquer modo é uma boa notícia, algo de construtivo. Confesso que a certa altura mudei de estação; sou um espírito inquieto. A estação logo à direita dava telegramas de Argel, crise na França; fui mais adiante, sintonizei um bolero; tentei ainda outra, dizia anúncios; voltei para o meu jardim florido em esperanto. O professor estava agora respondendo cartas de ouvintes. O Sr. Sizenando Mendes Ferreira, de Iporá, Goiás, escrevera dizendo que achara suas aulas muito interessantes e queria se inscrever entre s...

POEMINHA DA RESISTÊNCIA

Quando preciso partir, Poder ficar Quando necessário sorrir, De repente chorar Quando o ódio surgir, Inevitavelmente amar Quando a vida brincar de esconder Todas as cores e insistir em semear A dúvida no chão que pisas Olhe pela janela e assista a eterna primavera Que todas as manhãs vem lhe trazer Bom dia * * * Goiânia, 28 mar 2011

O vinho mais antigo do mundo

Hoje foi aberta em Londres a garrafa daquele que é oficialmente considerado o champanhe mais antigo do mundo, produzido pela casa francesa Perrier Jouët no ano de 1825. Para apreciá-lo, foi escolhido um seletíssimo grupo de doze renomados degustadores. Penso que deve ser um privilégio sentir o sabor de algo tão raro, embora haja controvérsias sobre o fato do aludido vinho ser o mais antigo de todos. Ainda assim, não há que ser desmerecida a oportunidade dada a cada um daqueles doze indivíduos, a partir de hoje declarados os doze guardiões do segredo contido naquela garrafa. Penso ainda nas lembranças diluídas em cada gota do divino líquido - as mãos da jovem camponesa nascida na província de Champagne, de pele queimada pelo sol, recolhendo cuidadosamente os cachos de uvas pendentes no parreiral, entregando-os à sua mãe, que tratava de ajeitá-los nos caixotes de madeira, até o dia em que ela própria, já no papel de mãe, é quem guardará as uvas, enquanto sua filha executará a tarefa qu...

Os reis de Dogtown

Hoje parei pra escutar a trilha sonora de um filme que para sempre guardarei no quarto das boas memórias, Lords of Dogtown . Em breves linhas, o filme conta a história de um grupo de garotos que, aproveitando um período de estiagem na Califórnia da década de 1970, invadia quintais com suas "pranchas com rodas" a fim de se divertir nas piscinas vazias, dando início àquilo que futuramente seria muito mais que um esporte, transformando-se num verdadeiro movimento cultural, a cultura do skate. Dentre os atores, merece destaque o papel do australiano Heath Ledger, precocemente morto em janeiro de 2008, aos 28 anos de idade. Não só pela história, que é muito bem contada, o filme merece ser visto pela excelente trilha sonora, que se encaixa perfeitamente nas cenas apresentadas. Só pra citar alguns nomes: Deep Purple, Jimi Hendrix, Neil Young, Black Sabbath, Rod Stewart, entre outros. Recomendo!   Neil Young - Old man   Sparklehorse and Radiohead - Wish you were here  ...

Gato na chuva - conto de Ernest Hemingway

Gato na chuva Apenas dois americanos estavam hospedados no hotel. Eles não conheciam nenhuma das pessoas com quem tinham cruzado pelas escadas, no movimento de “entra e sai” do quarto. Estavam hospedados no segundo andar, num apartamento que ficava de frente para o mar e também de frente para a praça e o monumento de guerra. Havia enormes palmeiras e bancos verdes na praça. Quando o tempo estava bom havia sempre um pintor com o seu cavalete por lá. Os artistas gostavam das formas das palmeiras e das cores brilhantes dos hotéis, de frente para os jardins e para o mar. Italianos vinham de longe para ver o monumento de guerra. Era feito de bronze e reluzia na chuva. Estava a chover. Gotas de chuva caiam das palmeiras. A água formava poças nos caminhos de cascalho. O mar quebrava numa extensa linha, na chuva, e deslizava rumo à praia para retornar e quebrar novamente numa longa linha, repetindo o mesmo movimento. Os carros já tinham deixado a praça, passando pelo monumento d...

Banho

A resistência do chuveiro queimara na noite anterior e sabia que o banho gelado na manhã seguinte seria inevitável. Suspirou profundamente. Ainda pensava nela, é verdade – a maneira como desfilava pelos cômodos do seu pequeno apartamento.  Um sol profundo parecia iluminar e aquecer seu coração sombrio durante aqueles dias. E disso sentia falta. Mas não esboçava nenhuma melancolia, apenas uma lembrança passageira que logo se dissipou ao colocar as mãos no livro que estava lendo antes de dormir. Passeava pelas ruas insalubres de Havana enquanto consumia as linhas daquele livro de contos do Pedro Juan Gutiérrez. Pensou que gostaria de viver daquele modo, desvencilhado das convenções sociais, movido apenas pelos extintos e pelas necessidades fisiológicas do seu corpo humano.  Álcool e sexo, resumindo em duas palavras. Porém, mal terminado um dos contos, lembrou que precisava dormir, acordaria cedo para o trabalho. Levantou-se aborrecido, o tempo correra mais rápido que o planej...

Drummondianas

Consolo na praia Vamos, não chores. A infância está perdida. A mocidade está perdida. Mas a vida não se perdeu.   O primeiro amor passou. O segundo amor passou. O terceiro amor passou. Mas o coração continua. Perdeste o melhor amigo. Não tentaste qualquer viagem. Não possuis carro, navio, terra. Mas tens um cão. Algumas palavras duras, em voz mansa, te golpearam. Nunca, nunca cicatrizam. Mas, e o humour ? A injustiça não se resolve. À sombra do mundo errado murmuraste um protesto tímido. Mas virão outros. Tudo somado, devias precipitar-te, de vez, nas águas. Estás nu na areia, no vento... Dorme, meu filho. Clique AQUI e ouça o próprio Drummond recitando este poema.   Via Memória Viva

O BOXEADOR

  O voo dela partiria às sete da manhã. Já passava das onze da noite, precisava ir, acordaria cedo. O pai a levaria ao aeroporto na manhã seguinte. Despediram-se. - E então, amanhã você vai aparecer por lá para um último adeus? - Não vou prometer, mas pode ser que eu apareça... Não eram namorados a rigor. Conheceram-se há uns dois anos numa exposição sobre Portinari. Ele, fotógrafo, cobria o evento para um jornal. Ela, estudante de cinema, buscava nos quadros inspiração para um curta-metragem. Ela o repreendeu quando o fotógrafo sacou a câmera e registrou sua imagem. - Hei, não te dei permissão para tirar fotos minhas! - Peço desculpas... é que estou um pouco entediado. Já tirei pelo menos dez fotos de cada quadro desses. Ela não se conteve ante o argumento do rapaz e sorridente lhe estendeu a mão. - Prazer, Silvia! E você, como se chama? - Constantino, mas pode me chamar de Tino. É assim que meus amigos me tratam. Trocaram telefones, marcaram o primeiro e...

Memória da guerra

GUERREIROS não vês as mesmas coisas               como eu as vejo não tens as mesmas crenças               as mesmas lendas               as mesmas leis não és o mesmo que eu é outra a roupa que me veste é outra a cor de minha pele eu falo eu canto eu rezo em outra língua em outra língua eu amo e choro e calo a outro deus eu devo a minha vida por esse deus te levo a morte (Izacyl Guimarães Ferreira) Conheça mais sobre o autor em:   Poesia.net Jornal de Poesia  

Só na maciota...

by Norman Rockwell Pra começar bem o domingão, só na maciota, sem aquela preguiça e descrença que nos invade o espírito quando adentramos o primeiro dia da semana... DOMINGO A palavra é originária do latim dies Dominicus . Povos pagãos antigos reverenciavam seus deuses dedicando este dia ao astro Sol o que originou outras denominações para este dia, em inglês diz-se Sunday , e no alemão Sonntag , com o significado de "Dia do Sol". Quer saber mais? Espia AQUI !   Mighty Show Stoppers - Hippy Skippy Moon Strut   Menahan Street Band - Home Again     Tim Maia Racional - Bom senso

Eternamente Vinicius

"Vinicius é o único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão. Quer dizer, da poesia em estado natural" Carlos Drummond de Andrade "Se eu tivesse, se eu tivesse muitos vícios, o meu nome, o meu nome era Vinicius... se estes vícios fossem muito imorais, eu seria o Vinicius de Moraes" Provocação criada pelos amigos do poetinha Balada do mangue Pobres flores gonocócicas Que à noite despetalais As vossas pétalas tóxicas! Pobre de vós, pensas, murchas Orquídeas do despudor Não sois Lœlia tenebrosa Nem sois Vanda tricolor: Sois frágeis, desmilingüidas Dálias cortadas ao pé Corolas descoloridas Enclausuradas sem fé, Ah, jovens putas das tardes O que vos aconteceu Para assim envenenardes O pólen que Deus vos deu? No entanto crispais sorrisos Em vossas jaulas acesas Mostrando o rubro das presas Falando coisas do amor E às vezes cantais uivando Como cadelas à lua Que em vossa rua sem nome Rola perdida no céu... ...

MÚSICA NEGRA

E viva à música negra universal, seja aquela que um dia ecoou pelas vastas plantações de algodão do Alabama e Mississipi, seja aquela que atravessou os canaviais caribenhos, seja aquela que ascendeu aos céus carregadas pelos atabaques escondidos nas senzalas. E viva, mais uma vez, à negra música, carregada de tanta dor e sentimento, mãe do blues, do samba, do jazz, do choro, do soul, do gospel, do rock, do funk, do R&B, do maracatu, do reggae, do hip hop, do batuque, do jongo, do rap e de toda música moderna. Até viveríamos sem ela... mas que graça teria viver? Nina Simone - Ain't got no... I've got life Bill Withers - Ain't No Sunshine Cartola e Leci Brandão - Tive sim Nat King Cole - When I fall in love Marvin Gaye - What's going on? Billy Preston & Ray Charles - Agent Double O Soul Pixinguinha - Arquivo Trama/Radiola Bob Marley - Redemption song  Umbabarauma/Ponta de lança africano - Jorge Ben Jor e Mano Brown Ray Charles - Georgia o...

Regalo português

HORAS MORTAS   O teto fundo de oxigênio, de ar, Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras; Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras, Enleva-se a quimera azul de transmigrar. Por baixo, que portões! Que arruamentos! Um parafuso cai nas lajes, às escuras: Colocam-se taipais, rangem as fechaduras, E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos. E eu sigo, como as linhas de uma pauta A dupla correnteza augusta das fachadas; Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas, As notas pastoris de uma longínqua flauta. Se eu não morresse, nunca! E eternamente Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas! Esqueço-me a prever castíssimas esposas, Que aninhem em mansões de vidro transparente! Ó nossos filhos! Que de sonhos ágeis, Pousando, vos trarão a nitidez às vidas! Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas, Numas habitações translúcidas e frágeis. Ah! Como a raça ruiva do porvir, E as frotas dos avós, e os nômadas ardentes, Nós vamos explorar todos os continentes E pelas vastid...

Aparte musical

Enquanto o carnaval corre solto, vou degustando meu uísque e ouvindo um pouco disso aqui, sem saber ao certo se existe alguma lógica nas minhas escolhas. Mas o que é mesmo lógica neste mundo de insanos? Pressinto e sinto palpitar uma forte tendência a falar coisas que não devia... enfim, melhor deixar pra lá! O gelo está derretendo, então vou me apressar. Gonzaguinha - Feliz Renato Teixeira - Amora (part. Osvaldinho do acordeon) Universo no teu corpo - Taiguara Milton Nascimento - Para Lennon e McCartney / Maria, Maria Amado Maita - Gestos

DIÁRIOS DE MOTOCICLETA

Ernesto, Alberto e "La Poderosa" - ano de 1952 Faleceu hoje o médico e escritor Alberto Granado Jiménez, aos 88 anos de idade. Granado foi amigo na juventude de Ernesto Guevara de la Serna, "El Che", a quem conheceu quando este tinha 14 anos e ele, 20. Sua história de vida tornou-se popular graças ao filme Diários de Motocicleta (2004), dirigido pelo cineasta brasileiro Walter Sales. Bioquímico de formação, Alberto e o então estudadente de medicina Ernesto empreenderam viagem pela América do Sul a bordo de uma velha motocicleta, "La poderosa". Partindo da cidade de Córdoba, na Argentina, os dois percorreram cerca de 10.000 quilômetros, passando pelo Chile, Colômbia e Peru. Após oito meses de viagem, Alberto resolveu fixar residência na Venezuela. Ernesto, por sua vez, impactado pela miséria e pela desigualdade social que conheceu na viagem, transformou-se num revolucionário idealista, gravando para sempre seu nome na história como "Che Guevara...

NA BOCA

Sempre tristíssimas estas cantigas de carnaval Paixão Ciúme Dor daquilo que não se pode dizer Felizmente existe o álcool na vida E nos três dias de carnaval éter de lança-perfume Quem me dera ser como o rapaz desvairado! O ano passado ele parava diante das mulheres bonitas E gritava pedindo o esguicho de cloretilo: - Na boca! Na boca! Umas davam-lhe as costas com repugnância Outras porém faziam-lhe a vontade. Ainda existem mulheres bastante puras para fazer vontade aos [viciados Dorinha meu amor... Se ela fosse bastante pura eu iria agora gritar-lhe como o outro: - Na boca! Na boca!  Manuel Bandeira (Recife, 19/04/1886 - Rio de Janeiro, 13/10/1968) Saiba mais sobre a vida e obra do poeta no site Releituras .

TESTAMENTO

Um dia recebi o título de poeta. Guardei-o, pequeno relicário incandescente que por tempos contemplei no quarto escuro da alma. Hoje, para o bem da poesia, dele abdico. Não fugirei como Rimbaud, que partiu aos vinte e poucos para o norte da África numa viagem sem volta. Não serei um mercador de armas como o jovem poeta francês. Quando muito, venderei lembranças num antiquário de peças sem valor. Tudo tende à dissipação dentro da manhã nublada. Os sentimentos aninhados nos quadrantes da memória se diluem no emaranhado de sinapses. O que restará de matéria poética, dessarte? Talvez o voo cego de um pássaro em extinção, ou ainda o brilho no olhar da moça sorridente, fossilizado na revista dominical. Doravante, as indagações tornaram-se irrelevantes. Silente, com dois olhos que queimam, serei apenas mais um espectador dos mistérios da vida e seu poder de transformação. * * * Goiânia, 03 de março de 2011

BEATLES

Como já dediquei um post ao inesquecível George Harrison, tratarei de recordar também os demais integrantes do Quarteto de Liverpool, cada qual trilhando seu próprio caminho após a dissolução daquela que foi a maior e mais influente banda de  rock de todos os tempos. Paul McCartney - Band on the run John Lennon - Jealous guy Ringo Starr - Liverpool 8