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Quintal das lembranças - parte VI

Wilson Simonal
O rei da "pilantragem"

Wilson Simonal de Castro (* 26/2/1939 – Rio de Janeiro, RJ; † 25/6/2000 – Rio de Janeiro, RJ), pode ser considerado o primeiro showman da música brasileira. Dono de uma voz privilegiada, à qual ele alinhava um profundo senso de ritmo e afinação, Wilson Simonal tornou-se um dos principais intérpretes da música brasileira nas décadas de 1960 e início dos anos 1970.

Uma de suas principais virtudes certamente foi incorporar em suas interpretações um certo swing advindo do jazz norte-americano, o que fez dele um cantor sui generis. Nascia aí o movimento musical denominado “pilantragem”.

Wilson Simonal transitava tranquilamente entre os repertórios do samba, bossa nova, tropicália e jovem guarda. No ano de 1962, lançou um disco revolucionário, intitulado A nova dimensão do samba, no qual interpretava, dentre outras, canções de Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Moacir Santos e Johnny Alf. Neste trabalho pioneiro, Wilson Simonal mesclou influências do jazz e da música pop americana com elementos da bossa nova e do samba.

Com o sucesso crescente, Simonal foi convidado para apresentar um programa na tv Record, intitulado "Show Em Si Monal", algo inédito, vez que foi o primeiro artista negro a comandar um programa televisivo no Brasil.

Bem sucedido, Wilson Simonal era o dono de um dos maiores cachês na época. Poucos sabem, mas é da sua lavra a expressão patropi, presente na canção País Tropical, de Jorge Ben, surgida quando resolveu cantar pela metade as palavras da música: “mo... num pa tro pi...”. A expressão transformou-se num jargão usado para referir-se ao país de então, de liberdades reprimidas pela ditadura militar.

Reconhecido pelo talento e bem sucedido na carreira, Wilson Simonal viu o seu trabalho ruir quando uma reportagem de 1972, do jornal O Pasquim, o acusou – sem qualquer provas – de “dedo duro”. Tal fato deu-se quando Simonal descobriu um desfalque em suas contas dado por um contador. Todavia, em vez de processasr judicialmente o camarada, Simonal, que tinha amigos na polícia, entregou o sujeito para os amigos policiais ligados aos órgãos de repressão, a fim de darem uma lição no desonesto.

As portas fecharam-se. As rádios não executavam mais suas canções. Tampouco os canais de televisão se interessavam por ele. Muitos artistas viraram-lhe as costas. O fato é que entre os anos de 1972 a 2000 pouca coisa foi noticiada sobre o velho Simonal. Nem mesmo a imprensa preocupou-se em investigar as acusações infundadas do Pasquim. Ninguém se preocupou em inocentar um artista que supostamente delatava colegas de profissão para o regime ditatorial. Isso era inadmissível. Sendo ele negro então, isso era um verdadeiro absurdo. Onde já se viu, inocentar alguém assim!

O fato é que Wilson Simonal faleceu em 2000, jurando até o último segundo que era inocente. Em 2002, seus familiares ingressaram com um pedido judicial para apurar os fatos. E como era de se esperar, nada foi encontrado nos arquivos do SNI, órgão máximo da repressão. Em 2003, num julgamento simbólico, Simonal foi moralmente reabilitado pela Comissão Nacional de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o que não deixa de ser uma hipocrisia, já que a importância da obra de Wilson Simonal o coloca entre os pais da moderna música popular brasileira.

Em tempo: numa entrevista dada à Revista Época, o cartunista Jaguar, na época um dos editores e responsáveis pela reportagem veiculada no Pasquim, admitiu que não havia qualquer prova do envolvimento de Simonal com a ditadura. Jaguar foi mais longe, dizendo-se orgulhoso “de ter ajudado a destruir a carreira do cantor”.



Wilson Simonal interpretando "Tributo a Martin Luther King"


Áudio da música "Nem vem que não tem"


Medley cenas - documentário sobre a obra de Wilson Simonal

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