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GIBRALTAR II

 


Gibraltar era mais um ponto no mapa, um nome que flutuava na geografia da minha infância, sem peso ou cor. Um dia, virou metáfora. “Inatingível como Gibraltar”, você dizia, com aquele meio sorriso que me desarmava. Não sei se falava de você mesma, de mim ou do que nós não conseguíamos ser juntos. Mas gostei da ideia de um rochedo: imóvel, altivo, cravado no horizonte.

Era final de outubro, prenúncio das primeiras chuvas de verão, o vento agitava a copa das árvores naquela tarde. O café que você preparou esfriava na mesa enquanto falávamos sobre coisas que não importavam. Você mencionou Gibraltar pela primeira vez ali, sem cerimônia, como quem joga um seixo na água. O som reverberou por dentro de mim, e só muito depois percebi o eco.

Amores inatingíveis têm essa estranha qualidade: nos aquecem e nos congelam ao mesmo tempo. Eu me aquecia no brilho da sua presença, mas também sabia que o caminho até você era longo, pedregoso, talvez interditado. Gibraltar, afinal, não se deixa escalar por qualquer um.

Os anos passaram com a pressa dos dias que não esperam nossa hesitação. As mensagens rarearam, as conversas se dissiparam como vapor de chaleira. Quando percebi, você já era um contorno distante, um vulto que eu não sabia se lembrava com nitidez ou reconstruía com desejo. Gibraltar continuava ali, mas a neblina entre nós parecia eterna.

Recentemente, li um artigo sobre o Estreito de Gibraltar. Dizem que, em tempos remotos, ali era uma ponte de terra, uma ligação entre continentes. Pensei em nós, claro. Talvez, um dia, também tenhamos sido uma ponte. Talvez fosse apenas uma passagem breve, destinada a desaparecer. Talvez.

Há quem prefira a nostalgia ao arrependimento. Há quem carregue o fardo daquilo que não viveu com mais cuidado do que o das experiências reais. Eu não sei em qual dessas categorias me encaixo. Gibraltar segue em meu horizonte, inalcançável e presente, um lugar onde nunca pisei, mas onde vivi algo que, talvez, nem você saiba.

E assim seguimos, cada qual em seu continente, separados por mares invisíveis e ventos que, às vezes, ainda trazem o eco de um rochedo distante.

* * *
Gurupi-TO, 18 jan 2025.


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