segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Nauro Machado

Exegi monumentum aere perennius  (Erigi um monumento mais eterno que o bronze - Horácio)


"Ocupo um espaço que não é meu, mas do universo"


"O mundo restará o mesmo sem minha quota de angústia e sem minha parcela de nada"
(Nauro Machado)


Nauro Machado, poeta maranhense, um gigante desconhecido. Autor de técnica refinada, autodidata, a um só tempo alia a produção em larga escala com a qualidade poética que lhe é peculiar. Mestre dos sonetos - vide a antologia Nau de Urano, lançada em 2002, que comporta mais de 800 poemas redigidos nesta forma. Não há na poesia brasileira atual quem lhe faça frente na confecção de sonetos.

Com mais de cinquenta anos de carreira, Nauro tem em seu currículo cerca de 30 livros de pura poesia.

Sobre Nauro:

É difícil qualificar esses poemas escritos, por assim dizer, no avesso da linguagem. Não é pela compreensão lógica que eles nos atingem, mas pelo sortilégio de um falar desconcertante e único.

(Ferreira Gullar)

Não hesito em colocar Nauro Machado entre os grandes poetas do Brasil de hoje, independente de geração ou idade.

(Antônio Olinto)

Poeta único na poesia brasileira [...] Nauro conseguiu sintetizar numa linguagem tão rarefeita, quase irrespirável, entre o céu e o inferno, o caótico destino humano.

(Cláudio Murilo Leal)

Nauro caminha na contramão de um leitor acostumado com as veleidades do fácil.

(José Aparecido da Silva)

Alta e impressionante poesia.
(Carlos Drummond de Andrade)

Poucos poetas – talvez um Baudelaire, um Antero de Quental, um Augusto dos Anjos – têm, como esse solitário maranhense, enfrentado a tarefa árdua e encantatória de expressar, mas o fazendo sob o regime de uma consciência criadora face às possibilidades do verbo – verbo que é fala, pensamento, imagem e melodia – os ângulos escusos, os obscuros abismos, as cartilagens doloridas e inescrutáveis da estrutura humana.(Hildeberto Barbosa Filho)

Apanha o homem na queda a estágios profundos de impotência e incerteza.
(Donald Schüller)

Uma carreira poética ímpar no contexto literário brasileiro de hoje.
(Alfredo Bosi)

Consciente da qualidade e peculiaridade literária dos seus versos dentro do panorama atual da poesia brasileira, Nauro sabe que escreve não para o leitor presente, embora, como ele mesmo disse, se dá por satisfeito em saber que existem dez ou vinte leitores que admiram sua obra poética. De fato, a poesia de Nauro, ainda ignorada em tempos hodiernos, é um presente para futuros arqueólogos.

. . .

Ofício

Ocupo o espaço que não é meu, mas do universo.
Espaço do tamanho do meu corpo aqui,
enchendo inúteis quilos de um metro e setenta
e dois centímetros, o humano de quebra.
Vozes me dizem: eh, tu aí! E me mandam bater
serviços de excrementos em papéis caídos
numa máquina Remington, ou outra qualquer.
E me mandam pro inferno, se inferno houvesse
pior que este inumano existir burocrático.
E depois há o escárnio da minha província.
E a minha vida para cima e para baixo,
para baixo sem cima, ponte umbilical
partida, raiz viva de morta inocência.
Estranhos uns aos outros, que faço eu aqui?
E depois ninguém sabe mesmo do espaço
que ocupo, desnecessário espaço de pernas
e de braços preenchendo o vazio que eu sou.
E o mundo, triste bronze de um sino rachado,
o mundo restará o mesmo sem minha quota
de angústia e sem minha parcela de nada.


O Parto

Meu corpo está completo, o homem - não o poeta.
Mas eu quero e é necessário
que me sofra e me solidifique em poeta,
que destrua desde já o supérfluo e o ilusório
e me alucine na essência de mim e das coisas,
para depois, feliz e sofrido, mas verdadeiro,
trazer-me à tona do poema
com um grito de alarma e de alarde:
ser poeta é duro e dura
e consome toda
uma existência. 
  
819

Abre-me as portas, mãe, enquanto as estrelas
buscam em mim agora a treva infinda,
sem luz alguma no meu olhar a vê-las
nessa cegueira a ser da altura vinda.
Assim, mãe, invado tua noite, a sabê-las
eternamente em pó na luz que é finda
só para mim, que vou comigo pelas
manhãs nascendo todas cegas ainda.
Como fazê-las ser de novo vivas?
Como, se nunca delas fui um conviva
às vidas feitas festas para as vistas?
Para arrancá-las da morte onde as pus,
quero essa noite, ó mãe, roubada à luz
do céu que, embora cega, tu conquistas.







2 comentários:

Alexandre Fernandes Corrêa disse...

Parabéns, pelo trabalho de divulgação desse grande poeta brasileiro!

Agostinho Oliveira disse...

Ótimo trabalho!