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Mostrando postagens de setembro, 2010

GIRASSÓIS NO QUINTAL...

GIRASSÓIS DE VAN GOGH Apagaram-se as últimas estrelas do firmamento E a noite em questão - matéria inerte condensada Num amálgama de medo e pavor É a negra pantera a velar teu sono A pesar sobre teu corpo Sedenta de um desejo cáustico Que lhe dissolve as fibras De um sonho distante Adormeces, enfim Embora retesado pelo frio O corpo permanece desnudo Os dedos arroxeados A face apática Um filete esbranquiçado De saliva derramada A pantera se vai com a última corrente de ar Frio, e lentamente se desvenda a manhã Tão leve como uma pluma juvenil E pela janela transpassam E derramam-se e deitam-se sobre a cama Os dourados raios da anunciação E a manhã foi feita Bela e trágica Como um girassol de Van Gogh

FALLUJAH

FALLUJAH persuadidos pelo silêncio da noite escura notas de veludo e pólvora suspensas no ar entrincheirados e sorridentes avançamos por entre os cadáveres da antevéspera há menos de um ano numa noite como esta dançávamos ao som do violino do velho que tocava sem cessar avancemos ainda que retesados e febris nossos corpos dentro da noite fria ao longe o clarão de chamas flamas ruivas e famintas debruçando-se sobre a gare arrastando-se pela planície soa o chamado do trem o último a despedir-se do continente caminhemos em meio aos escombros incandescidos da estação nossos corpos febris tocarão o fogo ainda assim sobreviveremos * * * GOIÂNIA, 19 JAN 2008

O BLUES A CERVEJA E A NOITE

O BLUES A CERVEJA E A NOITE o blues a cerveja e a noite aquecem o espírito das lembranças adormecidas uma a uma vão se levantando e ao meu lado se perfilando enquanto meus olhos contornam os brancos olhos da lua o blues a cerveja e a noite só me levam a um pensamento: não há solidão maior na vida quando as lembranças de um homem dele sentem piedade * * * Goiânia, 07 jun 2007
ÚLTIMO MOTIVO DA ROSA A beleza suicida da rosa no asfalto É um grito de desespero O último chamado do navio que desancora Lançando-se nas águas Daquilo que é mistério e dor e contemplação Saber das suas rubras pétalas É saber do sangue que escoa Ainda morno Pelas feridas nascidas dos embates Vãos de cada dia Sendo a rosa, dia-a-dia, Menos rosa, hoje Menos ainda rosa, amanhã Já sabendo a flores de velório É quando lhe sorri o mundo Com seus brancos dentes de sabre No asfalto, dilacerada A beleza fátua recende Da alma-rosa, Transcendente Da matéria-rosa, Morta * * * Goiânia, 03 de maio de 2006 Créditos da imagem: Henrique Kugler [http://br.olhares.com/galeriasprivadas/browse.php?user_id=185954]

DISCURSO DO TEMPO

DISCURSO DO TEMPO Quando eu for bastante velho a ponto de me ignorarem todos os espelhos do mundo e quando se tornar o sol apenas uma réstia florescente que em vão tentará aquecer o vidro das retinas serei mais jovem que o homem que fui há cinqüenta anos que o homem de hoje que o rapaz de ontem Quando muito, terei dez anos e os dias terão o sabor dos quintais e recenderão à terra molhada após as chuvas estivais E assim, a cada dia concluído os sentidos primários se apresentarão tal qual os de uma criança de colo até vir ao meu encontro a data fatal trazendo em sua mão o bilhete final com destino ao ventre da terra * * * Goiânia, 1º maio 2007.

MESTRE JONAS

MESTRE JONAS À Zé Rodrix, in memorian O pequeno Jonas passa as estações da vida no interior do quarto azul cercado de livros e miudezas de toda ordem. O interior do quarto é a sua grande baleia, onde Jonas planeja diuturnamente navegações fantásticas pelas águas do seu oceano particular. Jonas só não compreende a razão de ali vez ou outra aparecerem homens e mulheres em vestes brancas, trazendo nas mãos comprimidos, a fim de persuadi-lo a abandonar seu universo de infinitas possibilidades, forçando-o a viver num mundo rancoroso, onde pessoas sempre buscam caminhos opostos à felicidade. Mas o pequeno Jonas acredita na força da grande baleia, a romper incansavelmente as milhas marítimas, até o dia em que sairá pela boca gigantesca do cetáceo e que neste dia os pés descalços de Jonas mansamente tocarão o solo de um mundo novo. * * * Goiânia, 11 maio 2009.

PROMONTÓRIO

PROMONTÓRIO O mar sabe de si e da vida e da noite, que audível na lua cheia faz perpetrar seu lume em densas águas negras despertando das trevas os corais da madrugada O sol suspende o dia e com ele seus objetos de cor e criaturas de som nuvens, fragatas, uma nau : a paisagem reinventada em si mesma E com ímpeto febril, por sobre as rochas uma onda, que se devolve ao mar para que outra novamente se lance e assim continuamente no reiterado exercício de fúria e paciência possam consumir o espírito das pedras * * * Goiânia, abril de 2007.

Noite Veloz

NOITE VELOZ Há um grito perdido na noite. Há um bêbado quebrando garrafas Na esquina. Há um orgasmo sufocado entre Quatro paredes. Há um despertador programado para acordar Às cinco da manhã o jovem vendedor. E um ataque cardíaco que faz prolongar O sono de um velho esquizofrênico. Há um poeta insone a destilar Palavras ermas de sentido na Pele alcalina do papel A esperar que a manhã venha Recobrar-lhe os sentidos e devolvê-lo À trágica banalidade dos dias. * * * Goiânia, 06 de setembro de 2010.