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Quintal das lembranças - parte I


Cartola - Música para os olhos

Se nos dias atuais, o termo "favela" nos remete à lembrança de bailes funk e e disputa pelo tráfico de drogas, já houve um tempo em que essas comunidades abrigavam em seu seio a poesia brasileira em estado puro, expressada na forma de letras de samba.

Não, a poesia não abandonou as favelas. Todavia, diferentemente do samba de Zé Keti, o qual dizia que "eu sou o samba/a voz do morro sou eu mesmo sim, senhor...", morros e favelas ganharam novas formas de expressão. Não se quer aqui discutir a qualidade do que é produzido hoje nas comunidades, mas apenas fazer a constatação de que a poesia do samba está cada vez mais presente no passado. Nomes como Nelson Cavaquinho, Zé Keti, Carlos Cachaça, Guilherme de Brito, Heitor dos Prazeres e tantos outros ainda resistem no quintal das lembranças... mas até quando?

Pelo menos há o conforto em saber que o nome de Angenor de Oliveira, o mestre Cartola, ainda perdurará por longos anos. Pode-se dizer que Cartola representou aquilo que o imaginário brasileiro convencionou denominar "esperança". Nascido pobre no bairro do Catete, Rio de Janeiro, aos 11 anos de idade mudou-se com a família para a Mangueira. Aos 15 anos, a mãe falecida, foi expulso de casa pelo pai, que foi embora da Mangueira levando as irmãs menores.
Nessa época, ouviu o pai dizer a uma vizinha que "ele saía do morro, mas deixava um Oliveira para fazer a vergonha da família".

Semi-analfabeto, pobre, favelado... ainda assim Cartola construiu uma obra monumental. Suas canções, entremeadas por arranjos complexos e harmoniosos, falam de desilusões, amor, nostalgia, esperança. Mas, acima de tudo, revelam a altivez com que o poeta encarava a vida, sempre acreditando em dias melhores. Nem mesmo a velhice era capaz de abalá-lo. Antes sim servia de inspiração para o mestre. Basta lembrarmos da canção "O inverno do meu tempo", na qual Cartola dizia o seguinte:

Surge a alvorada
folhas a voar
e o inverno do meu tempo começa
a brotar, a minar

E os sonhos do passado
no passado estão presentes,
e o amor que não envelhece jamais
eu tenho paz
e ela tem paz

Nossas vidas
muito sofridas
caminhos tortuosos
entre flores e espinhos demais

Já não sinto saudade
saudades de nada que vi
no inverno do tempo da vida
oh! Deus
eu me sinto feliz

Como gostava de dizer, "sua vida podia ser comparada a um cowboy de cinema. Sofreu a vida inteira, mas no fim ele venceu".

Em tempo: para saber mais sobre a vida do poeta, recomendo o documentário "Cartola - música para os olhos", da Globo Filmes.



Cartola interpretando a canção "Peito Vazio"



Cartola, ao lado do seu pai, cantando "O mundo é um moinho"

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