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Mostrando postagens de janeiro, 2008

Quintal das lembranças - parte III

Sir John "The Ox" Entwistle O revolucionário do baixo Dando sequência aos modestos "ensaios biográficos" já postados aqui, resolvi mudar de vertente, que até então baseava-se no binômio samba/bossa nova, para trazer um pouco dos outros universos que entremeiam as lucubrações deste blogueiro. Por outro lado, gostaria de advertir que não possuo qualquer formação musical ou literária. Antes sim sou movido pela curiosidade em apreender e aprender sobre aquilo que julgo possuidor de qualidade, sem qualquer reserva de estilo ou preconceito. Sempre considerei que o baixo nunca teve a mesma badalação que a guitarra e a bateria numa banda de rock, justamente por ser um instrumento de apoio. Nomes como Hendrix, Eric Clapton e Jimmy Page fazem parte do imaginário dos apreciadores do bom e velho rock'n roll. Todavia, se perguntados a responder o nome de meia dúzia de baixistas, dificilmente completarão a lista. E foi no terreno das 4 cordas que John Alec Entwistle (Londres,...

Ferreira Gullar

MAIO 1964 Na leiteria a tarde se reparte em iogurtes, coalhadas, copos de leite e no espelho meu rosto. São quatro horas da tarde, em maio. Tenho 33 anos e uma gastrite. Amo a vida que é cheia de crianças, de flores e mulheres, a vida, esse direito de estar no mundo, ter dois pés e mãos, uma cara e a fome de tudo, a esperança. Esse direito de todos que nenhum ato institucional ou constitucional pode cassar ou legar. Mas quantos amigos presos! quantos em cárceres escuros onde a tarde fede a urina e terror. Há muitas famílias sem rumo esta tarde nos subúrbios de ferro e gás onde brinca irremida a infância da classe operária. Estou aqui. O espelho não guardará a marca desse rosto, se simplesmente saio do lugar ou se morro se me matam. Estou aqui e não estarei, um dia, em parte alguma. Que importa, pois? A luta comum me acende o sangue e me bate no peito como o coice de uma lembrança. (Ferreira Gullar)

Meu caro poeta...

Vinicius de Moraes e Rubem Braga. A simpática senhora infelizmente desconheço. Meu caro Vinicius de Moraes, Escrevo-lhe aqui de Ipanema para lhe dar uma notícia grave: a primavera chegou. Você partiu antes. É a primeira primavera de 1913 para cá sem a sua participação. Seu nome virou placa de rua. E nessa rua que tem seu nome na placa vi ontem três garotas de Ipanema que usavam minissaias. Parece que a moda voltou nessa primavera. Acho que você aprovaria. O mar anda virado. Houve uma lestada muito forte, depois um sudoeste com chuva e frio. São violências primaveris. O tempo vai passando, poeta. Chega a primavera nessa Ipanema toda cheia de sua música e de seus versos, e eu ainda vou ficando um pouco por aqui, a vigiar em seu nome as ondas, os tico-ticos e as moças em flor. Adeus. texto de RUBEM BRAGA Tarde em Itapuã - Vinicius e Toquinho

Quintal das lembranças - parte II

Rubem Braga - o fazendeiro do ar "Sempre tenho confiança de que não serei maltratado na porta do céu, e mesmo que São Pedro tenha ordem para não me deixar entrar, ele ficará indeciso quando eu lhe disser em voz baixa: "Eu sou lá de Cachoeiro..." Quando se fala em Cachoeiro do Itapemirim, Espírito Santo, alguns saberão tratar-se da cidade em que nasceu o cantor Roberto Carlos. E pouquíssimos mencionarão o nome do escritor Rubem Braga, que lá nasceu em 12 de janeiro de 1913, e sempre levou consigo as lembranças da sua terra natal, com as quais preencheu boa parte das crônicas que escreveu. Aos 15 anos foi enviado pela família para Niterói-RJ, onde moravam alguns parentes. Cursou a faculdade de Direito no Rio de Janeiro, tendo-se formado em 1932 na capital mineira. Além do Rio e BH, o velho Braga morou em São Paulo, Porto Alegre, Recife, Paris, Santiago e Rabat, capital do Marrocos, onde exerceu a função de embaixador, nomeado pelo presidente Jânio Quadros. Como jornalista,...

Quintal das lembranças - parte I

Cartola - Música para os olhos Se nos dias atuais, o termo "favela" nos remete à lembrança de bailes funk e e disputa pelo tráfico de drogas, já houve um tempo em que essas comunidades abrigavam em seu seio a poesia brasileira em estado puro, expressada na forma de letras de samba. Não, a poesia não abandonou as favelas. Todavia, diferentemente do samba de Zé Keti, o qual dizia que "eu sou o samba/a voz do morro sou eu mesmo sim, senhor...", morros e favelas ganharam novas formas de expressão. Não se quer aqui discutir a qualidade do que é produzido hoje nas comunidades, mas apenas fazer a constatação de que a poesia do samba está cada vez mais presente no passado. Nomes como Nelson Cavaquinho, Zé Keti, Carlos Cachaça, Guilherme de Brito, Heitor dos Prazeres e tantos outros ainda resistem no quintal das lembranças... mas até quando? Pelo menos há o conforto em saber que o nome de Angenor de Oliveira, o mestre Cartola, ainda perdurará por longos anos. Pode-se dizer q...

Iniciando os trabalhos...

Para dar início a este novo projeto, escolhi um texto da lavra deste humilde blogueiro que vos escreve... EXEGESE Não é somente da rosa-flor Perfume-rosa, rosa augusta de Perfilados dentes alvos Que se colhem palavras para a Composição do poema (palavras densas de açúcar como o são as passas estragadas; palavra-confeito que se desfaz na boca, espraiando-se pelas glândulas salivares) Reter a paisagem, descobrir O vocábulo entranhado no coração Dos monturos, a palavra inservível Presa de si mesma Verbo em decomposição, destilando Odores de metano Esperar a noite, o cair da noite O desenlaço de suas pétalas noturnas E das sombras ver surgir Seu tropel de criaturas segregadas Vinde palavras prostitutas, ébrias, Indigentes, viciadas de toda espécie Escutai o bater de asas, um anjo Por ti está em vigília Ainda que um anjo coxo Espécie de Quasímodo alado Adentrai vossa casa, não temeis Mesmo que edificada sobre o Moralismo movediço de tratados E convenções Repousai na face virgem e alcalina D...