quarta-feira, 11 de abril de 2012

CEMITÉRIO DOS NAVIOS


Aqui os navios se escondem para morrer. 


Nos porões vazios, só ficaram os ratos 
à espera da impossível ressurreição. 


E do esplendor do mundo sequer restou 
o zarcão nos beiços do tempo. 


O vento raspa as letras 
dos nomes que os meninos soletravam. 


A noite canina lambe 
as cordoalhas esfarinhadas 


sob o vôo das gaivotas estridentes 
que, no cio, se ajuntam no fundo da baía.


Clareando madeiras podres e águas estagnadas, 
o dia, com o seu olho cego, devora o gancho 


que marca no casco as cicatrizes 
do portaló que era um degrau do universo. 


E a tarde prenhe de estrelas 
inclina-se sobre a cabine onde, antigamente, 


um casal aturdido pelo amor mais carnal 
erguia no silêncio negras paliçadas. 


Ó navios perdidos, velhos surdos 
que, dormitando, escutam os seus próprios apitos


varando a neblina, no porto onde os barcos 
eram como um rebanho atravessando a treva!


Lêdo Ivo

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