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Postagens

O mistério da mulher

Certa altura, a poetisa mineira Henriqueta Lisboa definiu de modo sublime que “o mistério da mulher está em cada afirmação ou abstinência, na malícia das plausíveis revelações, no suborno das silenciosas palavras”. Com total razão: mulher é puro encantamento, ser mítico, miragem no deserto da solidão de qualquer homem ou de quem a deseje. Acerca da geometria das linhas, particularmente me encantam as imperfeições: a barriguinha saliente, coxas e nádegas volumosas travando lutas homéricas com o jeans, as maçãs ressaltadas, pintas aspergidas ao longo da pele... Um conjunto assim, acompanhado de uma personalidade enigmática, e logo sinto tremer o chão sob meus pés. Nada contra as assíduas frequentadoras de academia. Contudo, é com melancólica tristeza que diviso a moça em frente ao espelho em busca da selfie perfeita. Infindáveis exercícios para alcançar músculos bem definidos, tal qual um lutador de MMA. A cada série concluída, uma postagem nas redes sociais em busca de apr...

Sombras da alma

Existe lá fora um sol que arde inclemente, como se dissesse, em repúdio a toda forma de escuridão: - Não haverá trevas sobre a terra, senão a luz! Humildemente discordo do onipotente astro-rei. Trago no espírito minhas sombras, lugares ermos onde residem criaturas fantasmagóricas do passado, que de tempos em tempos assolam meus pensamentos. Os escuros da alma... Levei um tempo para descobrir que não havia modo de aniquilar as ditas criaturas. Estarão comigo até o fim dos meus dias. Quem sabe resolvam adormecer profundamente, a ponto de esquecer por completo minhas lembranças. Fato é que inevitavelmente outras criaturas se somarão às já existentes, num processo contínuo que envolve o próprio existir. Isso porque viver é estar exposto a toda sorte de emoções. No grande fluxo da existência, inevitavelmente sofremos os influxos do destino. Podemos acordar alegres, e repentinamente sofrermos o revés de um triste evento. Ou quem sabe, ao despertarmos num dia melancólico, sem qua...

O homem nu

Virou notícia instantânea: por volta das 12:30 horas desta terça-feira, um homem completamente nu foi visto caminhando tranquilamente pelas imediações do bairro Floresta, em Belo Horizonte. Não conheço a capital mineira, tampouco o dito bairro, mas em uma pesquisa rápida (menos de um minuto), pude constatar tratar-se de um local onde residem pessoas ordeiras e trabalhadoras em sua esmagadora maioria. Ao que me consta, até mesmo o escritor Carlos Drummond de Andrade lá residiu por alguns anos. Quanto ao nosso personagem, nada do que foi registrado pelos curiosos seria capaz de desabonar sua reputação, a não ser a insólita situação em que se encontrava em razão da ausência de vestes. Em dado momento, foi visto fazendo alguns alongamentos, coisa absolutamente normal em se tratando de exercícios físicos altamente recomendáveis, visto que proporcionam maior flexibilidade muscular. Fora isso, nada digno de nota. Pelo horário, talvez estivesse procurando algum local para almo...

Dialogando com Mario Quintana

Mestre Quintana, veja só, aprontaste das suas até mesmo no dia da sua partida.  Não queria saber de barulho no velório, bajulações tardias e sem propósito. Escolheu justamente o famigerado 5 de maio de 1994, dia em que o país, tomado por uma comoção generalizada, despedia-se do piloto Ayrton Senna da Silva. Mestre Quintana, neste canto do mundo onde diviso apenas solidão e desassossego, os seus cantares me guiam dentro da noite escura. Luzem estrelas luares, vossos quintanares, conforme a suprema sapiência de Manuel Bandeira. “Quem faz um poema salva um afogado”. Fato incontroverso, caro poeta. Teus versos são boias atiradas ao mar dos desesperados. Inegavelmente carregam um sopro de vida, estes teus versos. Mestre Quintana, certo dia me ensinaste que um desejo utópico não merece ser desprezado. “Se as coisas são inatingíveis... ora! Não é motivo para não querê-las”. Me cerco de desejos inatingíveis neste momento, caro mestre. A esperança de um mundo melhor para...

Naquela manhã cinzenta

Naquela manhã cinzenta me deste um sorriso, e por alguns instantes pude contemplar as cores do paraíso. Submerso no profundo mar azul dos teus olhos – que também seriam castanhos, ou ainda, tingido de todas as cores do arrebol – permaneci estático, tal qual um busto de bronze exposto às intempéries da ilusão. Por um fugaz instante experimentei uma paz profunda, quase celestial. E vi passar toda a febre do mundo, como as nuvens de uma tempestade que inesperadamente mudam seu curso. Num sobressalto, você deu um passo para trás. E mais um. O sorriso contornado pelo batom vermelho se desfez. Virou as costas e partiu, sem adeus. E naquele momento senti-me um tolo, atônito, perdido naquela manhã cinzenta. * * *  Gurupi, 21 set 2015.

Dança do tempo

A vida parecia dançar em sua cabeça. Os dias uniam-se às noites, e assim, entre os períodos de sono e vigília, se completavam semanas, meses, anos.   Há mais de dois anos residindo naquela cidade, e mesmo assim sentia-se um completo forasteiro. Já não lembrava mais da sensação de ter raízes em algum lugar. Não possuía um lugar para chamar de seu. Sequer sabia que rumo seguir. Atônito. Lentamente sentia que o tempo cobrava seu preço. Aos poucos, a juventude esvaía-se do seu corpo. O espírito, todavia, envelhecera bem antes. A intolerância cada vez mais presente o afastava do convívio de outras pessoas. Não suportava frivolidades. A solidão era destino certo. Chegara até ali sem ter realizado qualquer projeto digno de nota. Amigos se casavam, tinham filhos, casas bem decoradas, enquanto ele discutia com o locador o valor do aluguel do minúsculo apartamento onde habitava. O último, quiçá único, amor – ah, o amor! – que teve viu partir para longe... corações feridos. Talve...

Tirando o pó...

Sei lá por que cargas d'água resolvi voltar a escrever aqui. E coincidência ou não, amanhã se completariam 3 anos da minha ausência neste espaço. Sabe o que isto quer dizer? Absolutamente nada. Sem maiores delongas, vou exercitar novamente minha pena. Obrigado pela presença, caros amigos leitores!

O carcará encantado

Numa dessas manhãs nubladas em que a vida se enche de saudosismo, fui tomado pelas memórias do meu tempo como estagiário de direito, em especial aquelas dos dias em que a instituição na qual servia entrou em greve. Na ocasião, por determinação da chefia superior, ao menos um dos estagiários deveria ficar de plantão em cada turno, a fim de atender algum caso urgente que viesse a aparecer. Dentre as pessoas que laboravam na repartição, guardo ainda viva a lembrança da faxineira que diariamente limpava o lugar, de nome Andréia, que a todos cativava com seu jeito simples e espontâneo. Não me recordo, porém, se ela alguma vez chegou a pronunciar meu nome, pois usualmente tratava a todos pelo epíteto “irmão”. O fato é que a “irmã” Andréia estava grávida; a barriga proeminente denunciava que o parto estava próximo. Em algumas ocasiões a surpreendi fumando no estacionamento. Chamava sua atenção, explicando que o cigarro era prejudicial a ela e ao bebê. “Vou fumar só esse por hoje, i...

A última noite da sua vida

Já passavam das dez da noite quando ele foi surpreendido por um clarão que invadiu o seu quarto. O que seria aquilo, um contato extraterrestre? Um anjo da anunciação? Não importava. Ateve-se exclusivamente àquela voz límpida, sobrenatural, jamais experimentada pelos seus ouvidos, que simplesmente lhe disse: - Com a primeira luz do sol, você não estará mais nesse mundo. O que fazer de agora em diante? A pureza e a mansidão daquela voz não deixaram dúvidas, de fato sua vida não ultrapassaria aquela noite. Não amanheceria como nos outros dias, quando acordava mal disposto para o trabalho. Não teria que escutar o despertador às seis e quinze da manhã, entrar embaixo da ducha morna, escovar os dentes e tomar café na companhia da mãe. Deveria avisá-la que seria desnecessário mais um prato e um copo na mesa da manhã seguinte? Pensou que seria demasiado cruel. Aliás, ela não acreditaria. Talvez deixasse um bilhete, quem sabe avisando que fugiria para sempre, que não aguentava...

Também já fui brasileiro

Belo poema do eterno Carlos Drummond de Andrade.